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Colunista 07/12/2018 15:51
Por: Ângelo Savi
Ângelo Savi

Ângelo Savi

Ângelo Savi é advogado, formado pela UNISC, com pós-graduação em Direito Processual pela mesma instituição. Tem interesse em vários ramos do conhecimento, especialmente História, Política, Filosofia, Literatura, probabilidade, estatística e, mais recentemente, em Economia. Em seus artigos, chama atenção a facilidade com que passa de uma área a outra do conhecimento, aprofundando o tema abordado.

Tempos interessantes

Essa história de dizer “antigamente era melhor isso”, “antigamente era melhor aquilo” é bobagem. Sempre é a mesma coisa. Sempre tem a mesma quantidade de coisas ruins e coisas boas. O que acontece é que antigamente as coisas ruins e as coisas boas eram diferentes e a nossa memória seleciona só as coisas boas, justamente porque eram diferentes das coisas boas de hoje. Eu sei, eu estava lá. Por exemplo: uma vez eu viajei de Porto Alegre a Cachoeira num ônibus que ia para Bagé. Não, eu não tinha enlouquecido, é que era urgente a minha ida para Cachoeira, não lembro por que, e não havia mais passagem para lá, de modo que eu peguei o ônibus para Bagé com a intenção de descer no Posto Papagaio. Para quem não conhece, o Posto Papagaio fica a uns trinta quilômetros de Cachoeira, de modo que é relativamente fácil conseguir uma carona ou pegar um ônibus local até a cidade.

Na mesma viagem estava o Ministro Paulo Brossard, que na época, acho, ainda era senador. Devia estar viajando para tratar de algum assunto particular, pois Bagé é sua terra natal. Sem maiores comoções, sem seguranças, na maior tranquilidade. Naquela época era assim, um ministro do STF (ou futuro ministro, que ainda era só um senador) viajava num ônibus de carreira e ninguém se admirava. Era uma coisa boa que só antigamente acontecia e por isto que me lembro. Também ninguém teria o topete de afrontar o Paulo Brossard, porque ele, além de cortês, era respeitabilíssimo. Isto era uma coisa boa de antigamente: as autoridades eram (quase todas) pessoas respeitáveis.

Lembrei dessa história e contei esta lengalenga toda aí de cima porque ontem (4 de dezembro de 2018), o Ministro Ricardo Lewandowsky foi interpelado por um advogado num voo para Brasília que lhe disse que tinha vergonha do STF. O Ministro, como todo mundo sabe, não se preocupou em saber por que o cidadão tinha vergonha do STF. Muito menos procurou dialogar com ele. Se fosse o Paulo Brossard e se não houvesse razão para sentir vergonha, é certo que viria uma resposta demolidora que poria a nocaute o desavisado atacante. Mas acontece que há motivo para sentir vergonha do STF e, claro, não era o Paulo Brossard, só o Lewandowsky, que, como todo Lewandowsky, não quis nem saber e foi logo prendendo o rapaz. Quem assistiu ao vídeo do episódio viu que ele nem ao menos declarou sua vergonha em tom de voz agressivo, mas calmamente, como quem fala do tempo ou de uma banalidade qualquer. É porque os motivos de vergonha para o STF se tornaram banais mesmo. Depois de prender o advogado, o ministro Lewandowsky declarou que se sentiu na obrigação de defender a honra do STF. Que honra? Em setembro, outro ministro do STF, Luís Roberto Barroso, declarou numa entrevista à Folha de São Paulo que no Supremo tem gabinete distribuindo senha para soltar corrupto. Se foi um ministro do STF que disse é porque é verdade, mas nenhum de seus colegas se sentiu desonrado.

Antigamente não era assim. Hoje, soltar corruptos não os envergonha. Mas os outros sentirem vergonha por eles soltarem corruptos é motivo de desonra. Tempos interessantes estes em que estamos vivendo.

- X –

Antes que alguém me acuse vou confessando: plagiei o título “Tempos Interessantes” de um livro de Eric Hobsbawn.