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Colunista 12/08/2017 17:11
Por: Marcos Rolim
Marcos Rolim

Marcos Rolim

É jornalista, sociólogo e político, atuando também como professor universitário e consultor em segurança pública e Direitos Humanos. Formado em Jornalismo pela UFSM, cursou mestrado e doutorado em Sociologia pela UFRGS. É professor de Direitos Humanos do Centro Universitário Metodista. Atualmente, é coordenador de Comunicação Social do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul e membro do Conselho Nacional de Política Criminal. Colunista da Zero Hora, escreve sobre política e sociologia.

Bendita luz

(Extraído do jornal Extra Classe do Sinpro/RS)

A crise política na qual o País está mergulhado e a aparente ausência de alternativas nos coloca diante de um vazio. O Brasil não tem governo, como vocês já devem ter notado. Em Brasília, um grupo de impostores se assenhorou dos principais postos de comando para alavancar negócios com grandes empresas. A propina não se conta mais em milhares de reais, mas em milhões e há casos onde os serviços de picaretagem prestados asseguram o desvio de recursos públicos calculados em décadas de desembolso. Assim, por exemplo, para equacionar o problema de uma termoelétrica da J & F (holding que controla a JBS), os Batista prometeram a um certo Rodrigo Rocha Loures – aquele deputado da mais estrita confiança de Temer - pagamentos de 500 mil reais por semana, por mais de 20 anos. Delações como as da JBS e da Odebrecht permitem que se vislumbre o submundo da política brasileira e, também, a estatura moral de parte expressiva de nossos ricos. O quadro é desolador e envolve, como todos sabem, não apenas os partidos conservadores, mas também parte significativa da esquerda, capturada pela mesma dinâmica vil.

A gravidade dos escândalos, as gravações, as imagens, os depoimentos dos delatores e o cinismo dos implicados que nada sabem, que nada viram, que são sempre pobres vítimas de perseguições e injustiças atrozes, produzem a sensação de que vivemos em um país irreal, falso do começo ao fim, onde tudo se resume a um jogo monopolizado por espertalhões. As disputas políticas nesse quadro se assemelham a brigas entre quadrilhas e o que sobrevêm é o desencanto, o desinteresse, o cansaço.

Pesquisas têm identificado que parte expressiva dos nossos jovens gostaria de sair do Brasil. A mesma vontade é compartilhada por muitos brasileiros que já não acreditam que algo de bom possa ser construído por aqui. Este tipo de reação, entretanto, embora perfeitamente compreensível, talvez esteja sendo também estimulada por uma avaliação unilateral a respeito do que está ocorrendo. Por mais grave que sejam as circunstâncias.Penso que o fato de estarmos sendo apresentados à política real e ao Brasil verdadeiro seja muito importante. A corrupção agora exposta existiu durante décadas, alimentou os mais diversos governos, enriqueceu ilicitamente agentes públicos, formou impérios econômicos e corroeu o Estado. A diferença é que tudo isso ocorria sem que as pessoas soubessem. Ilustres bandidos puderam, então, posar de mocinhos e repetir discursos em favor da ética e do bem comum. Naquela época, como Chico assinalou em seus versos, “dormia a pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”. Agora sabemos. E porque sabemos não somos mais cegos errando pelo continente. A dor que sentimos é a luz; bendita luz.