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Colunista 23/04/2018 13:12
Por: Marcos Rolim
Marcos Rolim

Marcos Rolim

É jornalista, sociólogo e político, atuando também como professor universitário e consultor em segurança pública e Direitos Humanos. Formado em Jornalismo pela UFSM, cursou mestrado e doutorado em Sociologia pela UFRGS. É professor de Direitos Humanos do Centro Universitário Metodista. Atualmente, é coordenador de Comunicação Social do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul e membro do Conselho Nacional de Política Criminal. Colunista da Zero Hora, escreve sobre política e sociologia.

Os dois corpos do rei

No Brasil, Élpis, a deusa da esperança, a remanescente da caixa de Pandora, recolheu-se e seu destino é mais do que incerto. O fato irreversível do espesso presente é que vivemos sob o signo de Fobos, o deus do medo.

A prisão de Lula é um desses fatos históricos cujos sentidos serão projetados por décadas em direções surpreendentes. O que hoje parece avassalador e mobiliza sentimentos extremos – tanto entre aqueles que se entristeceram com o desfecho quanto com os que o celebraram – será visto de formas muito distintas logo que o medo se dissipe e o ódio decante. Será preciso que a polarização na qual o País se embretou seja superada para que as dimensões mais importantes dos fatos em curso possam ser melhor compreendidas. Hoje, nossa vista está turvada pela densidade do presente.

Vivemos um tempo de certezas esculpidas em granito; um tempo em que um punho vale mais que um argumento. O Brasil se dilacera há décadas pela violência, pela fome, pela corrupção e pela burrice, mas só a mentira e a torpeza que se instalaram no coração do que chamamos “política” podem destruí-lo.

Nossa maior carência é a de um projeto de País. Nunca o tivemos. Houve momentos em nossa história em que foi possível construir referências plausíveis em torno das quais se construíram caminhos – ainda que frágeis e contraditórios. O PT foi um desses momentos. A prisão de Lula é trágica não por aquilo que ela pressupõe como sofrimento ou injustiça, mas porque se sabe que algo de mais substancial se perdeu. O que escafedeu-se, já há muitos anos, foi o caminho. Isso não significa que o PT não seja mais viável eleitoralmente. Para que volte a oferecer um caminho, entretanto, será necessário fazer um ajuste de contas com sua trajetória e inventar outra.

Nesse sentido, a sala onde Lula foi confinado – não importa o tempo que ele lá permaneça – traduz o final de uma época que terminou em 15 metros quadrados. No Brasil, Élpis, a deusa da esperança, a remanescente da caixa de Pandora, recolheu-se e seu destino é mais do que incerto. O fato irreversível do espesso presente é que vivemos sob o signo de Fobos, o deus do medo.

Lula faz o que pode para que tenha uma chance de seguir protestando sua inocência. O art. 317 do CP (corrupção passiva) possui uma descrição com três situações, a de solicitar vantagem indevida, a de recebê-la e a de aceitar promessa de tal vantagem. Se Lula tivesse, no processo julgado até agora, recebido vantagem indevida, isso seria demonstrado de forma incontroversa por evidências empíricas, o que não foi. Já a prova da aceitação de promessa envolve desafio mais complexo. Mais difícil ainda a formação de opinião pública incontroversa com base em prova cuja tecnicalidade nunca indicou robustez. A repetição de que o acusado nunca teve a posse do apartamento, ao contrário, é suficientemente clara para que se produza um contraste em favor de Lula, por mais que essa narrativa seja retórica e não ofereça um cenário mais plausível para fatos como a reserva do imóvel pela empresa, sua reforma, a compra de mobília, etc.

A dura pena imposta a Lula e seu agravamento pelo TRF4, mais o açodamento da ordem de prisão, são outros fatos que sugerem desproporção e abuso, mormente quando se compara sua situação a de políticos brasileiros envolvidos em práticas de corrupção que foram documentadas, gravadas e filmadas. O juízo moral, assim como a cognição, lidam, o tempo todo, com um quadro comparativo. O fato da Lava Jato ter desconsiderado isso, parece ser o ponto mais importante a lhe subtrair legitimidade, o que é ruim para o Brasil.

Os apoiadores de Lula lutarão por sua liberdade e o PT, desprovido de um projeto de futuro, se volta para o passado e se funde ao corpo do ex-presidente, não ao corpo material, mas ao corpo simbólico. O que retoma a tradição medieval dos “dois corpos do rei”. Assim como os antigos monarcas, Lula passa a ter, além do corpo físico, um corpo místico. O corpo preso é aquele que se pode conter, o corpo místico é o efeito de uma transmudação. O corpo natural é humano porque imperfeito, sede de limites variados; o corpo místico é perfeito, porque emanação pura do divino (KANTOROWICZ, 1988, Cia das Letras). No quadro das referências cristãs, que estruturam a cultura ocidental, é o sofrimento que prepara a transmudação. Lula preso é a materialização de uma Paixão moderna, cuja mística aponta para a ressurreição. Haverá milhões de outros “Lulas”, esta foi a profecia anunciada em São Bernardo. Os fiéis captaram a mensagem, porque a ouvem a dois mil anos e alguns deles incorporam o nome de Lula ao seu próprio nome. Primeiro foi o partido que se despediu em reverência ao líder inconteste e infalível. Agora, é preciso um sacrifício maior. Os indivíduos devem se desembaraçar de si mesmos, para encontrar sua realidade verdadeira no corpo do rei. Nessa clave, Lula já não é um ser humano, como ele mesmo disse, mas uma ideia. Só não se sabe qual.