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Colunista 20/02/2018 10:38
Por: Flavio Williges
Flavio Williges

Flavio Williges

Flavio Williges é professor do Departamento de Filosofia da UFSM. Está em estágio de pós-doutorado na University of California, em Davis, como bolsista da Fundação CAPES. Interessa-se por filosofia das emoções, teorias éticas e psicologia moral. Escreverá sobre cinema, literatura e conduta da vida em geral.

Aprendendo a viver

Quando pais escolhem escolas para os filhos, geralmente eles pensam naquelas que melhor ensinam ou ajudam seus filhos a ter uma boa carreira. É sensato, pois cedo ou tarde todos nós temos que tomar conta de nós mesmos. A preparação técnica, para o trabalho, contudo, não é uma preparação para a vida. A vida tem muito mais coisas e, infelizmente, sobre essas outras coisas há poucos lugares para tomarmos lições e virarmos proficientes. Os grandes livros da literatura universal, a poesia, as mitologias religiosas, a arte, a filosofia, podem nos ajudar, ao lado do saber mais técnico, a dar sentido aos temas que tratamos em sussurros ou sobre os quais guardamos grande silêncio, como o amor e a morte. Também a experiência, a escola da vida, ajuda a entendê-los. Meu filhinho de oito anos, por exemplo, não está gostando muito dessa ideia das pessoas e animais morrerem e não voltarem mais. Ele queria saber se os mortos voltam como bebês. Eu disse que não, mas depois disse...sim, num certo sentido. As gerações se sucedem. Acho que ele não gostou muito da resposta. Entendo ele! Não há nada mais triste do que perder aqueles que amamos! Ele aprendeu isso muito cedo, quando Kadu, nosso cachorro, morreu. Foi uma experiência bastante triste e uma verdadeira lição que nosso amigo nos deu. Era nosso companheiro de caminhada e brincadeiras quase todos os dias. Enterramos Kadu nas terras de um vizinho. Lembro que meu filho ficou muito triste e, para acalmá-lo, falei que um dia iriamos revê-lo no céu canino. Isso, de algum modo, o consolou, mas agora, um tempo depois, ele andou pensando e quer saber onde fica o céu, onde moram aqueles que já se foram. Não se pode ver. Só nosso coração sente, acho que falei.

A experiência de perder alguém é das mais difíceis da vida. Não há nada que nos prepare para ela. E devemos ser gratos aos nossos amiguinhos caninos e felinos, pois é com eles, geralmente, que aprendemos essa lição, sem nunca pedirem nada em troca, como lembrou-me uma amiga. E também há pouco a ser dito para uma criança, quando ela começa a perceber que é quando amamos que a morte torna-se uma ideia realmente insuportável. Descobrir a morte é descobrir que levamos a vida assim, como se estivéssemos flutuando felizes num rio, e logo uma onda pode vir e nos encobrir ou encobrir aqueles que mais gostamos.

O amor e a morte são as duas maiores testemunhas da nossa fragilidade. São também provas de como a vida pode ser intensa, febril: não temos muito tempo, mas se há algum tempo valioso, deve ser aquele que vivemos na luz do amor.

Amar é perder, mas não amar é nada, é vazio. Carpe diem, amigos, nas belas palavras de Horácio!

Colha o dia, confia o mínimo no amanhã.

Não perguntes, saber é proibido, o fim que os deuses darão a mim ou a você,
Leuconoe, com os adivinhos da Babilônia não brinque.

É melhor apenas lidar com o que cruza o seu caminho.

Se muitos invernos Júpiter te dará ou se este é o último, que agora bate nas rochas da praia com as ondas do mar.

Tirreno: seja sábio, beba seu vinho e para o curto prazo reescale suas esperanças.

Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento está fugindo de nós.

Colha o dia, confia o mínimo no amanhã.