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Colunista 26/11/2017 15:22
Por: Marcos Rolim
Marcos Rolim

Marcos Rolim

É jornalista, sociólogo e político, atuando também como professor universitário e consultor em segurança pública e Direitos Humanos. Formado em Jornalismo pela UFSM, cursou mestrado e doutorado em Sociologia pela UFRGS. É professor de Direitos Humanos do Centro Universitário Metodista. Atualmente, é coordenador de Comunicação Social do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul e membro do Conselho Nacional de Política Criminal. Colunista da Zero Hora, escreve sobre política e sociologia.

Atirando a esmo

 

(Publicado no Sul21)

No domingo, dia 12, ocorreram quatro casos de disparos aleatórios contra a população, nos EUA. Os americanos usam a expressão mass shooting para nomear essa conduta, empregando-a para casos de disparos de arma de fogo contra o público, sem alvo definido, e que envolva pelos menos quatro vítimas, entre mortos e feridos, além do autor dos disparos. No Brasil, ainda se traduz a expressão como “tiroteio”, uma palavra cujo sentido está mais próximo de confronto com troca de tiros, o que não é o caso. Os quatro eventos de domingo foram em La Grange, na Carolina do Norte (três mortos e um ferido); em Gary, Indiana (sete feridos); em Atlanta, Geórgia (dois mortos e dois feridos) e em Malaga, Califórnia (cinco feridos). O que ocorreu nesse último domingo nos Estados Unidos para uma concentração tão alta de tragédias envolvendo atiradores aleatórios? Nada. Estamos falando de um domingo normal naquele país. Saiba, então, que, ao longo desse ano, casos do tipo já ocorreram 390 vezes nos EUA, com um total de 552 vítimas fatais e 1.864 feridos. Observem que, nessa conta, não estão os casos de atiradores aleatórios que mataram ou feriram menos de quatro pessoas.

Oa dados sobre todos esses eventos, ano a ano, incluindo as principais matérias feitas pela imprensa local, estão disponíveis em um site especializado que você pode acessar aqui . Após escrever essa frase, tive que atualizar os números do parágrafo anterior, porque recebi, em meu celular, a notícia de outro caso, com 5 mortos e 10 feridos, ocorrido na Califórnia, em Rancho Tehama Reserve, inclusive dentro de uma escola. Voltei ao site que registra os casos e a ocorrência já estava mencionada. Quando você estiver lendo esse texto, não será surpresa se os números já forem outros.

O que chega ao grande público, como regra, são as matanças em escolas e os “mega eventos” de horror com gente como Stephen Paddock, o atirador de Las Vegas, que, em primeiro de outubro, disparou contra um público de 22 mil pessoas que assistiam a um show de música country, matando 59 e ferindo 441. Fora esse, que foi o pior ataque da história americana, o mundo teve notícia de algumas outras tragédias, como aquela perpetrada por Devin Patrick Kelley, o jovem que, em 5 de novembro, matou 26 pessoas e feriu mais de 20, em uma igreja batista em Sutherland Springs, no Texas. Os casos que se repetem no cotidiano, entretanto, não despertam a atenção da mídia internacional e, mesmo nos EUA, parecem integrar a paisagem.

A ausência de uma maior atenção pública à gravidade do fenômeno produz a primeira impressão, a de que eventos de atiradores aleatórios ocorrem, nos EUA, algumas vezes. Na verdade, tais casos ocorrem quase todos os dias. A segunda impressão, a de que o fenômeno dos mass shootings se explica por doença mental dos atiradores é ainda mais enganosa. Primeiro, não sabemos qual a incidência de doenças mentais entre os autores dos massacres. Muitos entre eles não possuem antecedentes psiquiátricos ou criminais e eram considerados, até o evento trágico, “pessoas comuns”. Ainda que a maioria deles tivesse algum tipo de perturbação, isso não foi percebido como suficientemente grave a ponto de que alguma medida preventiva fosse adotada. Kelley foi membro da Força Aérea americana e havia sido desligado por bater na esposa e em seu filho. Antes disso, já havia sido acusado por conduta cruel com animais. Um sujeito por certo violento, mas que não parecia ser muito diferente. Paddock, por seu turno, era um contador aposentado, sem antecedentes violentos conhecidos. Seus motivos permanecem um mistério.

A grande questão que deveria estar sendo enfrentada é a facilidade com que os autores dos massacres obtêm armas de fogo, incluindo armas utilizadas em ofensivas de guerra. Paddock estava em um quarto de hotel com 26 armas de fogo, várias delas semiautomáticas. Em sua casa, as autoridades encontraram mais 19 armas, explosivos e milhares de munições. Kelley vestia roupas de combate e um colete balístico. Disparou contra os fiéis com um rifle AR 556 e a polícia encontrou com ele uma Glock 9mm e uma pistola Ruger.22, ambas compradas em uma academia de esportes em Santo Antônio.

Massacres promovidos por gente disposta a atirar a esmo precisam de mais do que uma pessoa em surto ou perturbada, ou simplesmente violenta e sem noção. Eventos do tipo precisam de armas portáteis e de alta letalidade disponíveis em qualquer esquina. Uma combinação que, em todo o mundo, só os norte-americanos foram capazes de promover. Se depender da “bancada da bala”, entretanto, o Brasil deverá copiar a experiência dos EUA e assegurar amplo acesso e porte às armas de fogo. A proposta que deveria ser, em si mesmo, um escândalo, prevê coisas como a possibilidade de porte de arma de fogo inclusive para quem é réu em processos criminais.

A situação de insegurança no Brasil já é extremamente grave, mas não há nada tão ruim que não possa ficar pior. Os deputados que estão a serviço da indústria de armas são outro exemplo disso e, nas próximas eleições, poderão formar uma bancada ainda maior. Como diz meu amigo Bipo, guardador de carros: “O bagulho tá nefasto”.