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Colunista 17/07/2020 05:15
Por: Ângelo Savi
Ângelo Savi

Ângelo Savi

Ângelo Savi é advogado, formado pela UNISC, com pós-graduação em Direito Processual pela mesma instituição. Tem interesse em vários ramos do conhecimento, especialmente História, Política, Filosofia, Literatura, probabilidade, estatística e, mais recentemente, em Economia. Em seus artigos, chama atenção a facilidade com que passa de uma área a outra do conhecimento, aprofundando o tema abordado.

Falta de água

Há centenas de milhares de anos, ou mais, o Rio Pardo nasce na serra e nela percorre um longo caminho até chegar às regiões baixas, estas, a começar por Candelária. Há milhares de anos também, toda vez que ocorre uma chuva mais forte na cabeceira do Rio Pardo, a água desce com violência, porque é da natureza de águas que descem regiões íngremes que o façam com tanto mais força quanto mais íngreme for a topografia do terreno. Isto qualquer um sabe pela experiência comum, e não é preciso fazer digressões nem experimentos para que seja constatado. É a velha história de que água morro abaixo ninguém segura. Fogo morro acima também ninguém segura, mas aí já é outra história. Portanto, quem estiver em lugar exposto à força das águas se previne. Desvia. Coloca proteção. Faz alguma coisa antes.

Só quem não sabe que a água do Rio Pardo desce com força de fazer alagamentos e destruição é a CORSAN. Tanto é assim que na semana passada, devido à enxurrada, faltou água em Candelária por três dias. A CORSAN não se dignou a desculpar-se pela sua inépcia, nem deu explicação sobre o que aconteceu, mas, segundo se diz em conversas e em redes sociais, a falta aconteceu justamente pelo transbordamento do rio. O que é curioso e contraditório, porque o aumento da quantidade de água foi o que causou falta de água consumível.

Diz-se também que tiveram que vir mergulhadores a fim de reparar ou recuperar o local de captação, que teria ficado danificado. Se for verdade, se está presente a outra contradição, pois o normal em uma região sujeita a frequentes enxurradas é que se tomem precauções antecipadas contra elas, não que se tenha de lançar mão de serviços extraordinários, como são os de mergulhadores. O normal também é que se tenha um plano alternativo para que em uma região sujeita a enxurrada, caso ela cause dano, se tenha de imediato como captar água de outro modo para cumprir com a obrigação de fornecê-la.

E o pior é que ao problema contrário, o da falta d’água por estiagem, também se avizinha como quase aconteceu pouco tempo antes da enxurrada. É visível que a cidade vem crescendo e a sua malha urbana aumentando nos últimos tempos. É fato perfeitamente previsível de que dentro em breve, se nada for feito para ampliar a captação e o fornecimento, vai faltar água no verão, devido ao calor e o consequente aumento de consumo, para o qual não se adota nenhuma prevenção.

Outro dia, assisti no YouTube um relato de um brasileiro que mora no Japão sobre como o serviço de fornecimento de água é feito por lá. Ele contou que certa feita foi procurado em sua casa por um funcionário da empresa fornecedora, que, pedindo desculpas antecipadas, o avisou que às três horas da manhã seria feito serviço de manutenção na rede da rua em que o brasileiro mora. O horário tardio era proposital para não atrapalhar a vida cotidiana do bairro. E também já foi alertando que foram tomadas medidas prévias para não haver barulho que perturbasse a vizinhança. Além disto, trazia um reservatório com vinte litros de água para caso de necessidade. E, de quebra, ainda avisou que, se fosse preciso mais água, era só pedir que ele seria prontamente atendido sem custo algum. Nós, brasileiros, nos assombramos com casos como este, porque acabamos nos acostumando com a incompetência e desleixo crônicos dos serviços públicos. Na verdade, não há nada de extraordinário em tratar com a máxima consideração possível o público, pois é para ele que os serviços existem.

Para nós, por enquanto, seria satisfatório se a CORSAN pelo menos conseguisse fornecer água continuamente, sem tropeçar em qualquer enxurradazinha comum e previsível.