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Colunista 07/06/2018 17:36
Por: Ângelo Savi
Ângelo Savi

Ângelo Savi

Ângelo Savi é advogado, formado pela UNISC, com pós-graduação em Direito Processual pela mesma instituição. Tem interesse em vários ramos do conhecimento, especialmente História, Política, Filosofia, Literatura, probabilidade, estatística e, mais recentemente, em Economia. Em seus artigos, chama atenção a facilidade com que passa de uma área a outra do conhecimento, aprofundando o tema abordado.

Não existe preço justo

Preço é um balanço de interesses entre quem compra e quem vende. O vendedor quer cobrar mais e o comprador pagar menos. Quando se ajustam os interesses dos dois há a definição do preço. O preço também resulta da relação entre demanda e escassez. É por isto que máquinas de escrever não valem nada. Elas não são mais fabricadas porque ninguém as quer, pouco importando sua utilidade, complexidade, sofisticação do seu desenho ou quantidade de trabalho necessária para serem feitas, pois os editores de texto fizeram com que ninguém mais as quisesse e por isto seu preço é zero.

É por isto também que, logo após a greve dos caminhoneiros, os preços explodiram. A escassez dos produtos foi a causa da carestia e não tem sentido dizer que os preços estão injustos. Basta ver que se a causa do aumento fosse a ganância dos comerciantes, os preços teriam subido antes da greve. No entanto, isto não acontecia porque não havia desabastecimento. Os preços só ficaram “injustos” quando os produtos desapareceram. Justiça e preços são conceitos inconciliáveis, porque justiça trata do que é correto, ou seja, é definida pela moral ou pela ética e preço é um fato que resulta da realidade, independente da vontade de quem quer que seja.

Portanto, a intervenção do governo, supostamente em favor dos caminhoneiros, não vai dar certo. O governo, como de hábito, entre todas as soluções possíveis, sempre escolhe a pior. Tabelar preços de fretes, diminuir o preço dos combustíveis por decreto, garantir um percentual de fretes da CONAB para os caminhoneiros autônomos é interferir na formação natural dos preços e, como sempre, vai resultar em escassez, confusão ou coisa pior. Nós já deveríamos saber disto porque no governo de José Sarney foi promulgado o Plano Cruzado, que tabelava todos os preços e que descambou numa crise enorme, em hiperinflação e situações absurdas como, por exemplo, os automóveis usados serem mais caros que os novos. Isto aconteceu porque as fábricas (e não só as de automóveis) pararam de produzir, de modo que o preço dos carros novos era (obrigatoriamente) barato mas eles não existiam. Antes, como agora, perseguia-se quem “abusava na cobrança de preços” com multas e até com cadeia, estabelecimentos eram fechados como punição, e deu no que deu. Parece que somos incapazes de aprender com erros passados, repetindo-os e querendo que por um passe de mágica eles se transformem em acertos.

A única solução possível - na verdade a prática correta - seria a de que o governo não interferisse mais na produção, refino, distribuição, venda e importação do petróleo. Mas como o horizonte dos políticos nunca é de longo prazo, indo no máximo de eleição em eleição, eles sempre optam por ações demagógicas e imediatistas. Na verdade, O PROBLEMA, assim mesmo, com maiúsculas, é o monopólio estatal através da Petrobrás. Aliás, O PROBLEMA do Brasil é a intervenção estatal em tudo. Havendo intervenção - qualquer intervenção, por menor que seja - não existe capitalismo e não existindo capitalismo não há incremento de produção e, por consequência, de riqueza e fartura, nem diminuição da pobreza. O capitalismo não é uma ideologia que foi criada por alguma cabeça iluminada: é consequência da liberdade, em particular no plano econômico, para se empreender e negociar. O resto é conversa fiada.