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Saúde 12/04/2024 15:30
Por: Odete Jochims

Você sabe o que é picacismo? Entenda!

Psiquiatra do CEJAM comenta sobre o comportamento alimentar que leva as pessoas a consumirem itens sem valor nutricional.

Você já ouviu falar sobre alotriofagia, picacismo ou síndrome de pica? À primeira vista, essas designações podem soar estranhas, mas todas se referem a um mesmo comportamento alimentar que pode levar indivíduos a consumir em grande volume objetos sem valor nutricional, ou seja, que não são alimentos.

O distúrbio é intrigante e representa um desafio tanto para as pessoas afetadas como para os profissionais de saúde encarregados de tratá-lo. Em geral, manifesta-se em crianças com até 6 anos e pode persistir até a vida adulta.

No entanto, é importante ressaltar que nem toda ingestão não alimentar configura-se nesse cenário, uma vez que é necessário que o comportamento ocorra pelo menos de uma a duas vezes por mês para receber essa classificação.

“Algumas das substâncias mais comuns e que essas pessoas ingerem com frequência são fósforos, cinzas de cigarros, gelo, terra, argila, pedras, papel, cabelos e pelos em geral, palitos de dente, sabão, notas de dinheiro, pasta dental e giz”, afirma o Dr. Rodrigo Lancelote Alberto, psiquiatra e diretor técnico no Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental (CAISM) de Franco da Rocha e no Hospital Estadual de Franco da Rocha, gerenciados pelo CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas "Dr. João Amorim" em parceria com a Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo.

Para além das crianças e gestantes, indivíduos diagnosticados com transtornos mentais também podem apresentar características de picacismo.

"Embora sua causa não seja totalmente compreendida, várias teorias sugerem a presença de fatores emocionais e deficiência de nutrientes, como ferro e zinco, como possíveis razões para o consumo de itens que não possuem valor nutricional. No entanto, esse consumo não contribui positivamente, uma vez que esses nutrientes, geralmente, são pouco biodisponíveis na maioria das substâncias consumidas pelo paciente que apresenta esse comportamento", explica o médico.

O termo “pica”, usado em dois dos nomes que remetem o quadro, faz analogia a um pássaro com o nome de P. pica ou Pega, que, não coincidentemente, é uma espécie de ave que tem o hábito de comer itens não alimentares, assim como a pessoa diagnosticada.

Segundo o especialista, a sua identificação ainda é considerada bastante delicada e demorada. "Essa é uma condição difícil para diagnóstico, devido à recusa que, geralmente, os pacientes têm em falar sobre o assunto. Muitas vezes, há vergonha e medo de julgamento por parte deles."

O hábito frequente de consumir coisas que não são alimentos pode afetar significativamente a qualidade de vida e a saúde física e mental dos indivíduos. Não só isso, pode ocasionar complicações orgânicas na cavidade oral, como deterioração e quebra de dentes.

"Existem ainda riscos gastrointestinais, como obstruções e perfurações, assim como infecções e intoxicações. Em casos mais graves, a substituição da dieta inadequada pode levar à desnutrição", relata o Dr. Rodrigo.

Tratamento

Em geral, o tratamento para a síndrome de pica é abrangente e envolve diversas abordagens, como nutricional, psicológica, farmacológica e comportamental.

De início, é crucial buscar ajuda médica, para realizar exames laboratoriais adicionais que identifiquem possíveis deficiências nutricionais. E, a partir disso, realizar ajustes na dieta e, se necessário, suplementação medicamentosa.

"A avaliação nutricional e os tratamentos psicológicos e psiquiátricos também são essenciais para compreender e abordar as causas subjacentes do comportamento alimentar inadequado. Isso porque, junto com o comportamento, existe uma questão social que é importante ressignificar", reforça o psiquiatra.

No contexto do atendimento nutricional, existe a prescrição de dieta, mas o tratamento vai além, buscando entender o sujeito como um todo. Para isso, é analisada a sua relação com a alimentação, considerando suas emoções, eventuais doenças pré-existentes e o contexto sociocultural em que se está inserido.

"Buscamos ajudar na construção da compreensão individual em relação à comida. Para isso, auxiliamos no reconhecimento de sensações e emoções associadas à ingestão de determinados alimentos. Nesse processo, a psicologia e a psiquiatria andam conosco”, acrescenta Marlucy Lindsey Vieira, nutricionista na UBS Jardim Nakamura, também gerenciada pelo CEJAM em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo.

O tratamento pode ser desafiador e sempre será adaptado às necessidades de cada paciente. O apoio contínuo, tanto médico como psicossocial, é essencial para ajudar o paciente a superar a condição e promover uma alimentação saudável e segura.

Ademais, vale destacar que esse padrão de comportamento não é necessariamente permanente e pode diminuir ou desaparecer com o tempo.
Sobre o CEJAM   
O CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim” é uma entidade filantrópica e sem fins lucrativos. Fundada em 1991, a Instituição atua em parceria com prefeituras locais, nas regiões onde atua, ou com o Governo do Estado, no gerenciamento de serviços e programas de saúde nos municípios de São Paulo, Rio de Janeiro, Mogi das Cruzes, Itu, Osasco, Campinas, Carapicuíba, Franco da Rocha, Guarulhos, Santos, São Roque, Francisco Morato, Ferraz de Vasconcelos, Pariquera-Açu, Peruíbe e Itapevi.    

Com a missão de ser instrumento transformador da vida das pessoas por meio de ações de promoção, prevenção e assistência à saúde, o CEJAM é considerado uma Instituição de excelência no apoio ao Sistema Único de Saúde (SUS). O seu nome é uma homenagem ao Dr. João Amorim, médico obstetra e um dos fundadores da Instituição.

No ano de 2024, a organização lança a campanha "366 Novos Dias de Cuidado, Amor e Esperança: Transformando Vidas e Construindo um Futuro Sustentável", reforçando seu compromisso com o bem-estar social, a preservação do meio ambiente e os princípios de ESG (Ambiental, Social e Governança).