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Colunista 12/10/2017 14:27
Por: Ângelo Savi
Ângelo Savi

Ângelo Savi

Ângelo Savi é advogado, formado pela UNISC, com pós-graduação em Direito Processual pela mesma instituição. Tem interesse em vários ramos do conhecimento, especialmente História, Política, Filosofia, Literatura, probabilidade, estatística e, mais recentemente, em Economia. Em seus artigos, chama atenção a facilidade com que passa de uma área a outra do conhecimento, aprofundando o tema abordado.

A ética e a riqueza

O filósofo Baruch de Spinoza escreveu, no século 17, sua monumental Ética Demonstrada à Maneira dos Geômetras, obra que ilumina o espírito humano até hoje. Sua linguagem é escorreita e, no entanto, não se trata de obra fácil de ser digerida pelo seu tema principal, que é Deus, pela densidade das ideias e pela forma como elas são expostas. O livro é escrito numa sucessão de definições, explicações, axiomas, proposições, em períodos curtos, mas profundos. A concepção de Spinoza sobre Deus o levou a ser excomungado da sua comunidade, a judaica, pela qual foi julgado herético. Antes de ser excomungado, os velhos da sinagoga lhe deram a alternativa de lhe pagar um rendimento anual em troca de seu silêncio e adesão, pelo menos formal, à fé tradicional. Spinoza recusou a proposta porque preferia ser um pária a renegar o que pensava. A sentença de excomunhão o proibia até de permanecer com os seus sob o mesmo teto. Assim, o filósofo foi viver completamente sozinho, ganhando a vida com o trabalho de polidor de lentes de aparelhos óticos, sem nunca deixar de atacar os preceitos da ortodoxia e a desenvolver suas próprias ideias sobre Deus, alma, emoções e liberdade.

Embora Spinoza tenha vivido na obscuridade e com saúde frágil escassos 44 anos, houve gente importante que reconheceu sua grandeza. O físico, matemático e cientista holandês Huygens, o filósofo Leibniz e outros o honravam e procuravam retirá-lo da sua vida miserável. Um comerciante rico chamado De Vries propôs deixar-lhe sua fortuna. O rei Luís XIV quis lhe dar uma pensão, desde que o filósofo lhe dedicasse sua próxima obra. A Universidade de Heidelberg lhe ofereceu uma cadeira de filosofia, com total liberdade para falar o que quisesse em suas aulas, salvo críticas à religião do estado.

Todas as ofertas foram recusadas, preferindo Spinoza viver e morrer em completa penúria a negar suas convicções ou concordar (mesmo que só na aparência) com o que sua razão negava. O nome deste comportamento é coragem, que não é aquela que comumente se conhece como ausência ou superação do medo em relação a perigos para o nosso corpo ou à nossa vida, mas coragem moral, virtude que sempre foi escassa.

E se Spinoza tivesse aceitado a oferta do rendimento anual para ficar calado? Ele teria vivido com mais conforto, possivelmente mais tempo do que sua curta existência, mas o mundo teria perdido sua filosofia. Mesmo em um comportamento absolutamente desprendido como o do filósofo, há um componente de vantagem e isto também se dá em questões materiais. Muitos sociólogos e economistas identificam um traço comum entre várias sociedades ricas, que é o de não serem formadas apenas por pessoas estritamente gananciosas e egoístas. Os americanos têm uma tradição de fazer doações. Bill Gates já doou mais de quatro bilhões de dólares e prometeu deixar para a caridade a maior parte de sua fortuna quando morrer. E muito outros benfeitores construíram museus, fundaram universidades (Stanford e Harvard, duas das mais importantes do mundo, foram criadas com recursos doados), fortunas foram legadas para as mais diversas finalidades sociais. Não é que doações e caridade façam uma sociedade rica, mas sim porque as condições para sua ocorrência acontecem em uma sociedade que tem padrões éticos elevados, nos quais valores como honestidade, honra, cumprimento de palavra e contratos estão entranhados no íntimo da maioria.

E a recíproca é verdadeira, pois há uma relação entre pobreza e sociedades materialistas, em que as pessoas buscam exclusivamente o próprio benefício, onde impera o logro e aqueles que não procuram levar vantagem são vistos como otários, ou seja, há ausência de padrões éticos.

Não há como não fazer um elo com o que acontece no Brasil, pois aqui aqueles que se dedicam aos assuntos públicos, o que, por definição, é tratar de interesses dos outros e não dos pessoais, são os mais notoriamente gananciosos habitantes do país. Como se não bastasse o que eles ganham direta e indiretamente de forma legal, que por si já é um assombro de mordomias e privilégios. Acontece que grande parte da sociedade está impregnada por esta carência de valores e a política não pode deixar de ser um reflexo do todo. Daí esta mentalidade ser uma das causas da nossa pobreza.

A família de Spinoza era de origem judaica portuguesa. Foram obrigados a fugir de Portugal devido à perseguição religiosa que havia na época, encontrando abrigo na Holanda. Um país minúsculo, frio, sujeito a inundações, ou seja, um lugar em que a prosperidade seria improvável. No entanto, a Holanda foi uma das precursoras da sociedade moderna, tendo o país enriquecido como nunca antes havia ocorrido em qualquer outro tempo ou lugar. Para isto, tiveram de trabalhar duro, claro que com intenção de ganho, mas pelo simples fato de abrigarem naquela época ainda obscurantista um grande contingente de perseguidos religiosos revela que não se tratava apenas de egoístas inescrupulosos, mas que também eram criaturas morais. Há uma ironia na história de Spinoza, pois, enquanto a Holanda protestante o acolheu e nunca o perseguiu por suas ideias ou por sua religião, o seu próprio povo, que havia sido perseguido no país de origem justamente por questões religiosas e raciais, foi quem o condenou ao ostracismo.