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Colunista 09/07/2018 09:40
Por: Flavio Williges
Flavio Williges

Flavio Williges

Flavio Williges é professor do Departamento de Filosofia da UFSM. Está em estágio de pós-doutorado na University of California, em Davis, como bolsista da Fundação CAPES. Interessa-se por filosofia das emoções, teorias éticas e psicologia moral. Escreverá sobre cinema, literatura e conduta da vida em geral.

Einstein e Zeitgeist, ou o Espírito de uma época


A Universidade de Princeton acaba de publicar uma edição inédita, em inglês, dos diários de viagem de Einstein. Em algumas passagens ele faz anotações xenofóbicas sobre os chineses, descrevendo-os como "obtusos, sujos", que procriam efusivamente e preferem se alimentar de cócoras, ao invés de sentados em bancos. A parte mais chocante de suas anotações, no entanto, aparece quando ele observa que "seria uma lástima se esses chineses suplantassem todas as outras raças. Para muitos como nós esse simples pensamento é inexprimivelmente sombrio". 
Comentei a notícia da publicação, que apareceu na edição de 12 de junho de 2018 do The Guardian, com amigos em redes sociais. Uma pessoa respondeu que seria anacrônico avaliar as observações de Einstein, que viveu no passado, com a régua moral do presente. Esse argumento é bastante repetido e usado como uma defesa às críticas feitas a personagens importantes do passado, quando se descobre que os mesmos alimentaram pensamentos ou atos reprováveis. Cientistas que aderiram ao nazismo, por exemplo, são desculpados, dizendo-se que "naquela época era comum", "todo mundo aderiu". Esse pode ser chamado de argumento do "espírito de uma época". De acordo com esse argumento, muito evocado aqui no Brasil quando pensamos na longa e vergonhosa escravidão negra, os escravagistas do período imperial não poderiam ser criticados, pois naquela época a escravidão era uma instituição socialmente aceita, as pessoas não tinham a sensibilidade moral que temos hoje para o sofrimento de certos grupos sociais. Alguns inclusive proclamam que mesmo famílias negras tinham escravos, o que, portanto, torna todo o discurso da injustiça e a importância de medidas reparatórias no presente, como as políticas de cotas para negros nas universidades, infundado. 
O argumento do espírito de uma época não pode ser usado como escudo contra erros morais vergonhosos do passado e do presente, de quem quer que seja. Esse tipo de argumento apenas serve para mostrar que diferentes épocas têm sensibilidades distintas e que aquilo que é valorizado hoje pode não ser valorizado amanhã. Disso, contudo, não se segue que não haja diferenças entre aquilo que é valorizado e aquilo que é valioso ou bom. As coisas que valorizamos são, muitas vezes, determinadas por razões subjetivas, históricas ou sociais, que não têm nenhum valor objetivo. No século XVIII, por exemplo, os atentados à honra (como a infidelidade ou galanteios) eram motivo de duelos armados e terminavam com a morte do perdedor. Hoje consideramos que atentados à honra podem ser repudiados de modo mais ou menos forte, mas não pensamos que são questão de vida e morte. Ou seja, a honra, hoje, é menos valorizada ou considerada menos importante do que foi no passado. Isso quer dizer que a honra não tem valor? Depende dos argumentos que sustentam o valor da honra. Se esses argumentos e fatos forem bons, ela será valiosa. Senão, será mais uma das ilusões morais que cultivamos com afinco durante anos, talvez séculos. 
O que é valioso, o que é bom e merece ser defendido tem valor objetivo. O valioso coincide com as boas e melhores razões disponíveis em qualquer época ou lugar. Se uma prática x foi apoiada e mesmo aplaudida por suas vítimas num certo momento histórico, isso não significa que essa prática não era errada naquele momento. Não havia, em 1800, tanto quanto hoje, qualquer bom argumento em favor da escravidão. A importância econômica de uma instituição não pode se sobrepor à dignidade humana. Um humano não é menos digno por não fazer parte da nossa família branca ou por se alimentar de cócoras. 
E Einstein, se tivesse a oportunidade de analisar suas próprias anotações, como pensador fino que era, certamente reconheceria que deixou-se levar por preconceitos, que foi motivado por razões subjetivas, frágeis, sem qualquer significado objetivo.
 Por que, então, temos a tendência a lamentar os ataques que figuras ilustres do passado, como cientistas, filósofos, religiosos, recebem quando aspectos vergonhosos de suas biografias vem à luz? Imagino que parte da resposta aqui seja a decepção por descobrir que até mesmo os melhores dentre nós podem errar, o que é, antes de tudo, desalentador, mas pedagogicamente importante. A vida humana é a vida na queda, dizem os livros sagrados. A conquista da bondade, na escuridão infinita que vivemos, é uma espécie de luta contínua, a qual, cedo ou tarde, descobriremos que perdemos. Alguns dentre nós certamente chegaram mais perto da ideia de ser uma pessoa bondosa, admirável, outros menos. Mas não há heróis ou personagens perfeitos.  Einstein certamente foi muito mais longe em bondade do que boa parte dos homens de todos os tempos. Ele foi uma voz pacificista importante num cenário onde todos queriam a guerra. Também contribuiu com o movimento dos direitos civis dos negros americanos. Mas ele também, como todos nós, não estava livre de erros.