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Colunista 10/07/2020 03:59
Por: Ângelo Savi
Ângelo Savi

Ângelo Savi

Ângelo Savi é advogado, formado pela UNISC, com pós-graduação em Direito Processual pela mesma instituição. Tem interesse em vários ramos do conhecimento, especialmente História, Política, Filosofia, Literatura, probabilidade, estatística e, mais recentemente, em Economia. Em seus artigos, chama atenção a facilidade com que passa de uma área a outra do conhecimento, aprofundando o tema abordado.

Quando os especialistas não estão de acordo...

Bertrand Russel, filósofo, matemático, escritor, lógico, ensaísta, prêmio Nobel e mulherengo (se casou quatro vezes), dentre muitas outras capacidades e qualidades, ficou conhecido pelo público por seus livros de divulgação da filosofia. Tinha uma personalidade fascinante, pois foi um matemático e lógico muito importante para a ciência, mas também achava tempo para participar da política e muitas outras atividades. Foi um notório pacifista, o que o levou à prisão e à perda da cátedra em uma universidade por sua posição contra a participação da Inglaterra na Primeira Grande Guerra. Tratava os temas que abordava com ironia e mordacidade, e uma de suas frases era a que, segundo a qual, se os especialistas não estão de acordo a respeito de algum assunto, o melhor que se pode fazer é não tomar partido de nenhuma opinião.

dizia que, mesmo quando todos os especialistas estão de acordo, podem muito bem estar enganados. Não era crente em nada e em nenhuma autoridade, inclusive as científicas, a quem só dava razão se o que afirmavam estivesse sólida e racionalmente fundamentado. Era intransigentemente cético e seu modo de viver ironicamente confirmou a correção de seu ceticismo, pois, apesar de ter fumado muito durante toda vida, morreu velho, aos 97 anos.

Nestes tempos difíceis de coronavirus, o que se vê e ouve é o desacordo dos especialistas sobre tudo: máscaras, confinamento, álcool em gel e qualquer opinião que possa haver sobre o vírus, suas consequências e tratamento. A hidroxicloroquina, por exemplo, tem na imprensa e nas mídias sociais defensores ferrenhos e opositores fanáticos. É inacreditável que tenhamos chegado a um tempo em que um remédio desperta paixões como se fosse uma partida de futebol. No entanto, as poucas opiniões razoavelmente cautelosas são as de que não há dados suficientes para afirmar se o medicamento é eficaz ou não no combate ao vírus. Ou seja, não se sabe se o remédio funciona, mas mesmo assim, leigos no assunto tem certezas absolutas sobre sua eficácia ou inutilidade. Se os especialistas não estão de acordo, como podem leigos ter certeza? Não podem, mas a certeza é uma aspiração humana muito forte, porque são poucas as coisas sobre as quais realmente podemos não ter dúvidas.

é evidente também que toda esta discórdia é embalada pela política. Se um lado tende para uma opinião, o outro imediatamente adota opinião contrária e vice-versa. É burro, é estúpido e contraproducente, mas é assim que acontece. É a paixão submetendo a razão, que é o que comumente acontece na vida e é contra isso que se opunha Bertrand Russel.

Para terminar, outra frase do filósofo sobre certezas que, é claro, não é seguida, mas deveria: “A maior parte das pessoas prefere morrer a pensar; na verdade, é isso que fazem”.