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Colunista 15/09/2017 14:22
Por: Ângelo Savi
Ângelo Savi

Ângelo Savi

Ângelo Savi é advogado, formado pela UNISC, com pós-graduação em Direito Processual pela mesma instituição. Tem interesse em vários ramos do conhecimento, especialmente História, Política, Filosofia, Literatura, probabilidade, estatística e, mais recentemente, em Economia. Em seus artigos, chama atenção a facilidade com que passa de uma área a outra do conhecimento, aprofundando o tema abordado.

A indiferença deles

Os flagelos políticos não nos dão trégua. Na semana passada foi a vez do Joesley e do Geddel, paradigmas da grande política e do empreendedorismo no Brasil. Geddel é conhecido em certos meios como Boca de Jacaré pelas grandes mordidas que costuma dar. A saga de Joesley Batista segue um roteiro comum no capitalismo de compadrio brasileiro: para obter financiamentos generosos no BNDES ele distribuiu propinas a torto e a direito. Quando descoberto, negociou uma delação premiada em que entregou o presidente em troca de ser perdoado integralmente. Desde o começo a história era mais malcheirosa do que as que estamos acostumados. Como pôde ser perdoado, até levando debochadamente seu iate de luxo para os Estados Unidos, onde foi se acoitar?

Quando tudo parecia ter se acomodado, aparece a gravação de um diálogo entre ele e um de seus executivos, Ricardo Saud. O que é mais incrível é a revelação de que Ricardo Miller - vejam só, um ex-procurador que se exonerou para trabalhar no escritório de advocacia que defende Joesley – o estava orientando no acordo de delação, que foi o fato mais importante revelado na gravação. Não dá para entender por que Joesley deliberadamente gravou uma conversa privada que teve com Ricardo Saud. Fica mais complicado de se entender o porquê de ter falado o que falou mesmo ciente de que estava sendo gravado. E acaba sendo impossível de entender que tenha enviado a gravação autoincriminadora para a procuradoria. Só se pode conjeturar: certeza de impunidade ou excesso de burrice. Considerando que o Joesley é capaz de dizer uma barbaridade como “nóis não vai se preso”, a segunda alternativa pode ser a certa.

E o Geddel? Mesmo tendo sido preso (mas logo solto), isto é, obviamente com a polícia em seu encalço, não se deu ao trabalho de esconder melhor R$ 51 milhões que estavam em um apartamento emprestado. R$ 51 milhões jogados no chão em malas e em caixas de papelão como se fossem coisa sem importância.

O que poderá causar tanta indiferença? Sim, porque o procurador que um dia está não só acusando como também teoricamente colhendo provas contra o acusado e no outro se bandeia de lado e passa a defendê-lo, sem se importar com o evidente antagonismo da mudança. O empresário que grava suas palavras autoincriminatórias não se preocupa de modo algum em escondê-las, mandando a gravação para seus acusadores. O político guarda descuidadamente uma fortuna em dinheiro vivo e, mesmo sabendo estar sob investigação, que provavelmente chegaria ao dinheiro, não se dá ao trabalho de pelo menos achar um esconderijo melhor.

Neste Brasil de ministros mordedores, empresários amigos e ignorantes e procuradores venais, vale a pena ser ladrão. Os trouxas que tentam ser corretos pagam. E os espertalhões podem até ser condenados a décadas de prisão em que passarão poucos anos mas logo logo, conforme a lei, estarão livres para desfrutar do resto da fortuna que roubaram.