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Colunista 19/02/2018 15:04
Por: Ângelo Savi
Ângelo Savi

Ângelo Savi

Ângelo Savi é advogado, formado pela UNISC, com pós-graduação em Direito Processual pela mesma instituição. Tem interesse em vários ramos do conhecimento, especialmente História, Política, Filosofia, Literatura, probabilidade, estatística e, mais recentemente, em Economia. Em seus artigos, chama atenção a facilidade com que passa de uma área a outra do conhecimento, aprofundando o tema abordado.

O que podemos fazer para sermos ricos

No princípio era o escambo. Funcionava assim: o sujeito tinha um peixe, por exemplo, e o trocava por uma flecha. O dono do peixe ficava satisfeito porque conseguia uma flecha sem ter que fazê-la, e o da flecha também, porque agora tinha um peixe sem ter que pescá-lo. Só que este arranjo tem limitações, pois muitas vezes quem tem o que o outro deseja pode não se interessar pelo que lhe está sendo oferecido em troca. Daí a invenção do dinheiro, que é um bem que todos querem, raro, fácil de carregar e fracionável. Com o dinheiro a troca simples foi substituída por uma mais complexa, que pressupõe duas operações em vez de uma (troca-se o que se tem por dinheiro e depois troca-se o dinheiro pelo que se deseja), mas paradoxalmente, o intercâmbio ficou mais fácil e prático. O dinheiro se entranhou no nosso modo de vida tão intensamente que acabamos por confundi-lo com riqueza. Pensamos que ele por si só compra as coisas, esquecendo que é uma representação, um símbolo da boa e velha troca de uma coisa por outra.

Na essência, continua sendo e sempre será necessário - para adquirir o que desejamos - que antes tenhamos produzido algo, ou prestado algum serviço, para transformá-lo em dinheiro. É claro que se alguém tirar o prêmio da loteria ficará rico, mas isto não nega o processo de acumulação de riqueza mediante trocas. Pelo contrário, confirma-o, pois, neste caso, milhões de pessoas jogaram o seu rico dinheirinho, obtido sempre do mesmo jeito, com troca ou prestação de serviço, na esperança de que por um golpe de sorte recebessem o bolo todo. Muitos perdem para que só um (ou alguns poucos) ganhe. Canalizou-se, por sorte, uma imensa produção para o bolso do sortudo.

Logo, a chave do enriquecimento, tanto das pessoas quanto do conjunto delas, o que é chamado de país é a produção e as trocas. Quanto mais trocas e produção, mais riqueza. Isto tudo é tão óbvio, tão evidente, que não dá para entender como políticos, economistas, administradores e todos que podem fazer alguma coisa para que aconteça não o façam.

É evidente que o Brasil tem potencial para ser muito mais rico do que é. Enquanto os riquíssimos Japão, Singapura, Suíça, Luxemburgo, entre outros, não têm recursos naturais, nós os temos de sobra. Temos um vasto e diversificado território, mas a triste realidade, apesar de todas as estatísticas, apesar dos demonstrativos dizerem que somos a oitava ou nona economia do mundo, é que somos pobres. Porque riqueza não é um índice do PIB, mas sim a qualidade de vida e a fartura de bens e serviços que cada indivíduo desfruta. Não temos saneamento, estradas decentes e segurança. Não podemos utilizar plenamente nossos automóveis porque os combustíveis são os mais caros do mundo, quem tem ar condicionado tem que racionar seu uso porque o preço da energia é exorbitante, há milhões de pessoas querendo e podendo trabalhar que não encontram emprego. Há milhões de pessoas subempregadas que poderiam prestar um serviço mais qualificado, e assim por diante.

A questão é: por quê? Considerando que riqueza são produção e trocas, a resposta só pode ser a de que as fazemos menos, muito menos, do que poderíamos. Logicamente deve haver uma razão para esta deficiência porque ninguém é maluco para não querer melhorar de vida.

Não produzimos, e, por consequência, não empregamos, porque não vale a pena. Para produzir é preciso investir. Até para se vender cachorro-quente na esquina é preciso antes comprar a carrocinha. Há muito poucos incentivos para que se invista em produção e muitas razões para não fazê-lo. A começar pela dificuldade que se tem em abrir um negócio, causada pela absurda burocracia que tem que ser vencida. Mas, caso tenha conseguido erguer um empreendimento, o dono tem motivos de sobra para empregar o mínimo possível, pois as armadilhas para quem emprega são muitas: a fiscalização do Ministério do Trabalho, os encargos do salário, a burocracia para fazer a folha de pagamento, a dificuldade para demitir, a impossibilidade de se dar qualquer vantagem extra para o empregado, pois ela não poderá mais ser retirada quando os negócios não estiverem favoráveis, a permanente ameaça da reclamação trabalhista e por aí vai. Mas digamos que o obstinado empresário consiga ter superado todos estes entraves e conseguiu até ter lucro. Se por acaso preencher por engano uma nota, é multado. Se atrasar um dia o pagamento de qualquer imposto, será multado. Se for apressado e abrir seu negócio antes de estar devidamente registrado, será multado. Se mudar de endereço e esquecer de informar à receita, será multado. Se esquecer da nota fiscal quando estiver transportando suas mercadorias, será multado. E tem muito mais, mas paro por aqui, senão nem todo o jornal seria suficiente para enumerar tudo que o estado pode fazer (e faz) para impedir que se trabalhe e se produza. Depois disto tudo, ainda tem os impostos. O empresário terá de pagar o COFINS, PIS, CSLL, IRPJ, ICMS, ISS, INPS, FGTS, IPI, taxas, licenças, alvarás, e aqui também paro antes do fim por que tem muito mais.

Deste jeito, o que causa admiração não é que não sejamos ricos, mas sim, que não sejamos mais pobres. É que ainda existe gente sonhadora o suficiente para se arriscar empreendendo no Brasil. Então é simples enriquecer, pois o que atrapalha a produção e o comércio não são forças invencíveis, como terremotos, infertilidade do solo, falta de matéria-prima, falta de gente para trabalhar, falta de água, etc., mas entraves que nós mesmos criamos. Basta tirá-los.