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Colunista 16/01/2018 18:44
Por: Ângelo Savi
Ângelo Savi

Ângelo Savi

Ângelo Savi é advogado, formado pela UNISC, com pós-graduação em Direito Processual pela mesma instituição. Tem interesse em vários ramos do conhecimento, especialmente História, Política, Filosofia, Literatura, probabilidade, estatística e, mais recentemente, em Economia. Em seus artigos, chama atenção a facilidade com que passa de uma área a outra do conhecimento, aprofundando o tema abordado.

Como se cozinha um sapo vivo ou a janela de Overton

Se alguém quiser cozinhar um sapo vivo não deverá jogá-lo diretamente na água fervente. O pobre animal, ao sentir o calor, imediatamente reagirá e saltará fora da panela. Poderá até morrer da queimadura, mas não irá se conformar em ser cozido vivo. A maneira correta será a de colocá-lo num recipiente com a água com que está habituado. O sapo, neste caso, não reagirá; pelo contrário, ficará feliz, pois se encontra numa situação com a qual se sente confortável. No entanto, o insidioso cozinheiro irá cautelosamente colocar um pequeno fogo sob a panela e lentamente o irá aumentando até o ponto de fervura. Como a mudança é lenta e quase imperceptível, o sapo irá paulatinamente se acostumando a ela e, quando ele menos esperar, estará cozido. A leitora deve estar se perguntando por que alguém haveria de querer cozinhar um sapo vivo e eu respondo que não tenho a menor ideia, só sei que o mundo está cheio de malucos e não duvido que exista alguém que cometa semelhante desatino. A história só serve para ilustrar que há certas empreitadas que devem ser feitas aos poucos para que tenham sucesso.

Foi o que pensou Joseph P. Overton, um executivo de uma instituição americana dedicada a atender grupos de interesse com o objetivo de transformação social. Uma think tank, que, como o leitor sabe, é o nome que se dá a este tipo de organização. Na verdade, Overton não criou algo novo. Ele simplesmente racionalizou uma percepção intuitiva que existe há bastante tempo: alterações na opinião pública devem ser feitas aos poucos, com sutileza, e não contestando frontalmente a mentalidade estabelecida. Overton imaginou uma escala representando a opinião pública que varia entre os extremos, “contra” e ”a favor”, “permitido” e “proibido”, ”verdadeiro” e “falso”, ou quaisquer outras que sejam adequadas ao assunto. No centro encontra-se a posição de neutralidade e entre o centro e as extremidades um gradiente de posições, como “a favor com ressalva”, “moderadamente contra”, etc. De modo que, se em um dado momento a opinião pública é “a favor” de algum assunto, sobre ela se coloca uma janela que pode ser deslocada para a direita ou para a esquerda, em direção ao posicionamento que se quer que a população adote. Daí o nome “Janela de Overton”.

O pulo do gato é o seguinte: um batalhão de artistas, comunicadores, jornalistas, cientistas, institutos de pesquisa, defendem ou atacam, conforme o curso que se deseja tomar, um tema anexo ao principal, mas de valor secundário, que não é exatamente aquele a que se deseja chegar. Quando a opinião pública aceita a nova situação, se vai adiante, com outras demandas, sempre tendo como alvo o destino final, que é a mudança total da opinião pública. É claro que isto exige muito dinheiro e tempo. Contudo, ambos serão compensados com sobra quando se chegar ao destino que se quer.

Um exemplo com começo, meio e (quase) fim: há cinquenta anos os raríssimos ou quase inexistentes vegetarianos eram vistos como dignos de serem postos em camisa de força (mais ainda aqui no Rio Grande do Sul, estado eminentemente carnívoro). Não se concebia alimentação adequada que não fosse composta pelo menos em parte por proteína animal. Começaram então a aparecer infindáveis pesquisas condenando a carne como causadora de problemas cardíacos, celebridades se dizendo vegetarianas, artistas pregando os benefícios do veganismo, notícias sobre os malefícios da gordura animal, defesa dos direitos dos animais, a ponto de que hoje quase que se tem de pedir desculpas por comer carne. Também apareceram outras condenações, como a do café, do chocolate, dos ovos, estas nitidamente com o objetivo de incutir nas pessoas a ideia de que há alimentos que fazem mal numa associação aos malefícios da carne. Depois, curiosamente, absolveram-se estes três últimos, mas aí já estava estabelecida a mentalidade de que tudo que se come pode fazer mal, salvo, evidentemente, a comida “natural”. Também, embora exista uma evidente diminuição no consumo da carne, não há uma correspondente diminuição nas doenças cardíacas, muito pelo contrário, estas aumentam cada vez mais.

A leitora ou o leitor pensará que estou delirando ou que enveredo pelo caminho de uma teoria da conspiração, mas pense apenas no interesse que a multibilionária indústria da soja tem em substituir a proteína animal pela vegetal. Nos ganhos extraordinários que a indústria teria se 50% da carne consumida no mundo fossem substituídos por derivados de soja, e aí se tem uma justificativa com sobra para todo o dinheiro que se gastou e se gasta com campanhas a favor do vegetarianismo e, consequentemente, um motivo claro para que se tenha trabalhado tanto para alteração da opinião pública.

Portanto, quando todos os programas de televisão, os políticos, os jornais, as pesquisas, os especialistas, ativistas, ONGs e outros, defendem ou atacam unanimemente este ou aquele comportamento ou costume, pode ser que seja só uma coincidência, mas também, que seja o fogo que está lentamente cozinhando os miolos das pessoas para que elas abandonem suas opiniões e preferências para serem dominadas. Pode ser que seja o sapo sendo cozinhado.