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Colunista 11/06/2020 05:27
Por: Ângelo Savi
Ângelo Savi

Ângelo Savi

Ângelo Savi é advogado, formado pela UNISC, com pós-graduação em Direito Processual pela mesma instituição. Tem interesse em vários ramos do conhecimento, especialmente História, Política, Filosofia, Literatura, probabilidade, estatística e, mais recentemente, em Economia. Em seus artigos, chama atenção a facilidade com que passa de uma área a outra do conhecimento, aprofundando o tema abordado.

O ladrão e os bandidos

Procurando um arquivo perdido num velho CD de recuperação achei as crônicas que publicava na Folha de Candelária antigamente. Não sei quando elas foram feitas, porque não estão datadas. Mas a recuperação é de 2000, de modo que pelo menos se pode dizer que elas têm mais de vinte anos. Lendo o que eu mesmo escrevi há tanto tempo, me surpreendi por verificar que pouca coisa mudou de lá para cá. Não resisti à tentação de republicar esta, evidentemente com a anuência do Luciano Mallmann.

 

No dia 5 de junho de 1926, a Folha da Manhã, de São Paulo, publicava, com estardalhaço, manchete que dava conta de que o ladrão Meneghetti havia sido preso pela polícia depois de um mês de perseguição. Este tal Meneghetti notabilizou-se nas décadas iniciais do século XX por ser um exímio arrombador. Foi um meliante que jamais usou de violência, mas sim de habilidade. Dispunha de astúcia e arte suficientes para andar por cima dos telhados, escapar cinematograficamente da polícia e arrombar as mansões dos barões do café para furtar obras de arte, prataria e objetos valiosos. Era um artista em seu ofício e recusava-se a realizar trabalhos fáceis. Somente aqueles que desafiavam sua capacidade, pela dificuldade, mereciam a atenção do Meneghetti. De forma que ele acabou por transformar-se primeiro num mito. Segundo, no bandido do Brasil do princípio do século.

Mais do que diferença entre os ladrões de hoje em dia e aquele de antigamente, existe diferençaa entre os mundos daquele tempo e de hoje. A começar porque havia tão poucos criminosos profissionais, que um simples ladrão contumaz acabou por tornar-se uma personalidade conhecida do público. Hoje são tantos criminosos de calibre grosso (nos dois sentidos) que a imprensa nem se dá ao trabalho de publicar a captura de meros ladrões. Depois, se o inimigo público número um naquele Brasil antigo não usava de violência e fazia questão de praticar furtos difíceis e arriscados, a criminalidade de hoje é indiscriminada e a exceção é quando não é praticada violência. Além do mais, suprema ironia, o nome do ladrão era Hamleto, provavelmente em homenagem à peça de Shakespeare. Imagine só, um ladrão que traz no nome reverência a um artista.

Se a gente pensar um pouco na forma de ação daquele praticamente único bandido de antigamente e na dos criminosos de hoje, dá para intuir as causas que motivaram um e outros e que são as condicionantes da criminalidade avassaladora que nos oprimem. É perfeitamente possível ver num ladrão que faz questão de praticar furtos difíceis e sem violência, por absurdo que possa parecer, certo sentido de respeito. Seja ele em relação à sua própria atividade criminosa, seja às pessoas. Sim, porque somente uma pessoa imbuída de ânimo respeitoso evita machucar os outros e não se rebaixa procurando facilidades.

E penso que foi isso que mudou. O século 20 foi longe demais derrubando tabus, dogmas, verdades imutáveis, superstições, num comportamento que originalmente era bom, mas que, por excessivo, acabou por fazer com que os freios do homem acabassem por se tornar inoperantes o que - apesar de não ser a única causa - é um dos grandes motivos da criminalidade violenta de hoje