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Colunista 05/04/2019 15:59
Por: Guilherme Brambatti Guzzo
Guilherme Brambatti Guzzo

Guilherme Brambatti Guzzo

Guilherme Brambatti Guzzo nasceu em Sananduva/RS, é biólogo e professor. Atualmente, é docente no curso de Ciências Biológicas da Universidade de Caxias do Sul e cursa doutorado em Ensino de Ciências e Matemática pela PUCRS. A coluna tratará de livros e discutirá temas relacionados à educação e às ciências.

Sobre ter convicção

Um homem com convicção é um homem difícil de mudar. Diga a ele que você discorda, e ele lhe vira as costas. Mostre a ele fatos ou figuras, e ele questiona as suas fontes. Apele à lógica, e ele não conseguirá ver o seu ponto.” Lembro com frequência dessas palavras, que iniciam “When prophecy fails”, uma obra clássica da psicologia social escrita por Festinger, Riecken e Schachter em 1956. Mais especificamente, não consigo deixar de pensar no trabalho de Festinger e colaboradores quando ouço ou leio alguém que exalta o fato de ter convicção em algo como se isso fosse, por si só, uma virtude extraordinária.

Em 1954, Leon Festinger, um psicólogo americano, leu em um jornal sobre um grupo de pessoas que estava esperando pelo fim do mundo. O jornal destacava a entrevista de Dorothy Martin, a líder do grupo, uma dona de casa que afirmava receber mensagens telepáticas de alienígenas do planeta Clarion. O líder dos alienígenas, Sananda, transmitiu a Martin a notícia de que o fim do mundo – que seria causado por uma grande enchente – ocorreria antes do amanhecer do dia 21 de dezembro de 1954. Nem todos morreriam, advertiram os alienígenas: as pessoas que estivessem “prontas” – isto é, que seguissem o grupo de Martin – seriam salvas por um disco voador, que chegaria na passagem do dia 20 para 21 de dezembro daquele ano.

Festinger ficou entusiasmado pela história, e contatou o grupo com a intenção de poder acompanhar as pessoas mais de perto. O psicólogo não esperava pelo final do mundo, mas estava curioso para saber como os seguidores de Martin reagiriam ao fato de que, passada a meia-noite do dia 21 de dezembro, nenhum disco voador aparecera, e o mundo continuara a existir. Após algumas ligações, Festinger e seus colaboradores tiveram a permissão para participar dos encontros, e então passaram a registrar o que observaram e ouviram dos participantes (os pesquisadores se apresentaram como pessoas interessadas na profecia, e nunca revelaram que eram psicólogos, e tampouco o real objetivo de terem se unido ao grupo).

O objetivo da pesquisa de Festinger era o de testar elementos de sua teoria sobre a dissonância cognitiva. A dissonância acontece quando alguém mantém duas ou mais opiniões, crenças ou atitudes que são incompatíveis, isto é, que não combinam uma com a outra e sinalizam inconsistência. Imaginemos uma pessoa que fuma e está ciente das evidências que ligam o hábito de fumar a uma série de doenças. Festinger e colaboradores assumem que há duas maneiras gerais de ela resolver a dissonância: ou descarta uma crença ou atitude contra a qual existem pesadas evidências (parando de fumar, por exemplo), ou então tolera a dissonância através do raciocínio motivado, inventando uma justificativa para ela (“cigarro não faz tanto mal assim, há pessoas que fumam e vivem até os 100 anos”). Para esses autores, a segunda é a atitude mais provável, pelo menos entre as pessoas mais convictas, já que aparenta ser menos dolorosa do que a admissão do erro e o consequente descarte da crença ou a mudança de atitude.

Festinger e seus colaboradores, de fato, puderam testemunhar diversas situações em que as pessoas do grupo de Martin foram expostas a inequívocas evidências de que estavam erradas – e isso ocorreu nas semanas anteriores à derradeira previsão dos alienígenas. Em uma dessas ocasiões, a líder do grupo previu que um disco voador pousaria em um campo próximo a uma rodovia. Em outra, Martin, recebeu uma mensagem dos alienígenas dizendo que uma nave aterrissaria no quintal de sua casa às 16h do dia 17 de dezembro. Uma nova previsão de pouso de uma nave alienígena no quintal da líder terrena foi feita posteriormente.

Nenhum dos eventos previstos por Martin ocorreu, obviamente. Os pesquisadores, no entanto, tinham mais interesse em saber como as pessoas que seguiam o culto lidariam com a dissonância (“eu creio que minha líder recebe mensagens de alienígenas, e eles dizem que X vai ocorrer no dia Y”, mas “X não aconteceu”). E então o raciocínio motivado começou a entrar em ação, na forma das justificativas dos membros do grupo para as falhas nas previsões de Martin. Para a não ocorrência do pouso no campo próximo da rodovia, as pessoas consideraram que Sananda, o líder alienígena, havia aparecido disfarçado de um homem curioso que veio conversar com o grupo – e assim a previsão, parcialmente, havia sido cumprida. Novas explicações foram dadas para os outros pousos que deveriam ter acontecido: em uma delas, a líder disse que o disco voador não havia descido porque ainda não era a ocasião para isso.

Na véspera do final do mundo ocorreu a refutação da previsão mais importante de Martin: a de que o disco voador chegaria a partir da meia-noite e levaria com ele os membros do culto. O grupo aguardava a chegada da nave sentado em uma sala, com Festinger e seus colaboradores presentes, contando os minutos para o cataclismo. À meia-noite, nada diferente aconteceu, e as pessoas decidiram esperar um pouco mais. O tempo passou e o disco voador não veio. Martin saiu da sala para tentar contatar os alienígenas. Quando a líder retornou, trouxe a explicação para o ocorrido: as pessoas que estavam naquela sala haviam emanado muita luz, o que fez Deus salvar o mundo da destruição iminente. A chegada do disco voador, por isso, não era mais necessária, já que o mundo não iria acabar.

Tão interessante quanto a história em si é o fato de que muitos dos seguidores do grupo abraçaram tranquilamente a explicação de Martin de que o mundo havia sido poupado da destruição. Em geral, as pessoas que haviam feito os maiores investimentos em sua crença nas supostas profecias dos aliens (vendendo bens, abandonando suas famílias ou empregos, etc) foram aquelas que tiveram mais dificuldade em mudar de opinião e admitir que haviam sido enganadas (ou, pelo menos, que estavam erradas sobre a história toda). Eis o poder da convicção e do grande investimento pessoal em algumas crenças: fazer com que as pessoas acreditem no inacreditável, mesmo em face de evidências avassaladoras de que elas estão erradas.

Ter convicção não é, por isso, uma virtude, como muitos de nossos políticos parecem transparecer quando falam, com orgulho, que “estão seguindo suas convicções”, “defendendo suas convicções” ou que são “pessoas que têm convicção”. Certamente, há ocasiões em que nossas convicções são bem fundamentadas e razoáveis e, nesse caso, faremos bem em defendê-las e entender isso como algo positivo. Mas isso nem sempre acontece: a força de nossas convicções não está, normalmente, diretamente ligada à qualidade das evidências que temos para elas.

De qualquer maneira, mais importante do que ter convicções é estar disposto a ponderar sobre elas e a avaliar a sua razoabilidade. Muitas das discussões que vemos hoje tornam-se rapidamente agressões verbais porque as pessoas simplesmente querem defender as suas ideias, e não pensar sobre elas. Sim, eu sei que algumas de nossas crenças são muito importantes para nós, e por isso ficamos bastante desconfortáveis quando elas são confrontadas. Mas, se queremos manter diálogos minimamente saudáveis com outras pessoas, precisamos considerar seriamente a possibilidade de que nós podemos estar errados, e não os nossos interlocutores. Se não, estaremos como os membros do grupo de Festinger, ansiosamente à espera de discos voadores que nunca virão.

Dialogar/discutir para aprender, e não para vencer: eis um lema que me parece sensato para seguirmos. Isso não significa que devemos abrir mão de todas as nossas crenças e convicções: significa que devemos nos dispor a revisá-las (por isso é importante ter contato com pontos de vista relevantes que são distintos dos nossos), mantê-las se tivermos boas razões para isso, ou abandoná-las na falta de base adequada para a crença, por mais dolorido que seja esse processo.

É quando discutimos nossas opiniões e testamos nossas convicções que abrimos espaço para aprender e para refinar as nossas ideias. E, também, para fugir de situações nas quais a nossa convicção nos leva a defender ideias que normalmente consideraríamos insensatas ou até absurdas se fossem aceitas por outras pessoas, como a de esperar pela carona de alienígenas às vésperas do fim do mundo.