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Colunista 07/12/2017 13:58
Por: Ângelo Savi
Ângelo Savi

Ângelo Savi

Ângelo Savi é advogado, formado pela UNISC, com pós-graduação em Direito Processual pela mesma instituição. Tem interesse em vários ramos do conhecimento, especialmente História, Política, Filosofia, Literatura, probabilidade, estatística e, mais recentemente, em Economia. Em seus artigos, chama atenção a facilidade com que passa de uma área a outra do conhecimento, aprofundando o tema abordado.

A incompreendida Dilma

Dilma Roussef declarou que perdoava os batedores de panelas que faziam algazarra cada vez que ela falava na televisão defendendo-se do impeachment. Fez bem. O que não se sabe é se os batedores de panela a perdoaram. Mas se não, eles estão sendo injustos porque ela foi uma incompreendida. A começar pela cisma que ela tinha de ser chamada de “presidenta”. Nada mais justo, o substantivo tem os dois gêneros e se ninguém fala “presidenta” não é porque a flexão para o feminino doa nos ouvidos, mas sim por um invencível machismo. Houve até uma senadora que fez a concordância entre o substantivo e o adjetivo: “presidenta inocenta”. A moda deveria ter pegado e se estendido, por exemplo, quando uma mulher estivesse doente não se diria mais “Fulana está doente”, mas sim “Fulana está doenta”. A presidenta, se tivesse continuado, certamente teria dado muitas contribuições em diversas áreas. Poderia estender a sua fantástica lógica, inalcançável para a maioria, como quando disse que não tinha meta, mas quando chegasse à meta, dobraria a meta.

Não é porque a afirmação não tenha sentido que muitos não a entenderam, mas sim porque não têm alcance mental para compreender a sofisticação do pensamento. Ou então, que maravilha, quando homenageou a mandioca. Não se sabe se a mandioca ficou agradecida, deve ter ficado, mas consta que a jabuticaba, planta genuinamente brasileira, ficou incomodada por não ter sido lembrada também. E quando ela melhorou a taxonomia, acrescentando a ela um gênero novo, a mulher sapiens? (Para ficar correto em latim, deve ser escrito mulier). Agora temos o gênero homo, que engloba várias espécies, como o habilis, ergaster, floresciencis (todos extintos) e o gênero mulher, que, por enquanto, tem apenas a sapiens e é integrado apenas pelos indivíduos femininos que antes faziam parte do gênero homo.

E no campo social? Quantas políticas públicas de “bolsas” a presidenta poderia ter feito? Os times de basquete são extremamente discriminatórios. Sempre contratam jogadores muito altos e nunca baixinhos ou anões. A presidenta, certamente sensível aos reclamos dos discriminados, poderia ter feito uma ação afirmativa obrigando os times de basquete a contratar anões. Ou verticalmente prejudicados, como é certo dizer. E as editoras? Nunca editam livros de analfabetos. Deveriam ser obrigadas a contratar os que não sabem ler ou escrever. Já pensou? Uma obra sobre o pensamento de Dilma Roussef escrita por um analfabeto. Poderia ter o título de “O Cérebro da Presidenta” e seria uma obra de trezentas ou quatrocentas páginas, todas elas em branco. Um inevitável sucesso. Ou então as bolsas. Poderia ser criada a bolsa-peruca para favorecer os carecas. A bolsa perna-de-pau para os baixinhos ficarem mais altos. Ou então a bolsa-óleo-de-peroba para os cara-de-pau.

Mas as maiores façanhas de Dilma, foram, sem dúvida, na economia e na sua evolução. Por exemplo, seguindo a escola econômica dilmiana de gastar recursos inexistentes, se ela não tivesse sido defenestrada, hoje o país estaria devendo muitíssimo mais do que deve. Para tapar o buraco, o governo teria que cada vez mais pedir dinheiro para os bancos, que estariam cobrando não estes juros mixurucas de duzentos ou trezentos por cento ao ano, mas talvez mil ou dez mil, num fortalecimento nunca visto do sistema financeiro que, hoje, seria o mais robusto do mundo.

Mas a maior incompreensão sobre a política de Dilma se deu no caso da Petrobras. O sistema de roubalheira implantado na estatal, se tivesse continuado, a teria destruído completamente. Isto é o melhor que poderia ter acontecido, pois como se sabe, a petroleira é um flagelo para o país, porque a sua especialidade é a de produzir combustíveis vagabundos a preços extorsivos e, além disto, corrupção sistemática. Como ela é monopolista, nenhuma outra empresa pode produzir derivados de petróleo, o que nos deixa sem saída a não ser a de comprar as porcarias que ela produz. Se tivesse sido completamente destruída, obviamente hoje estaríamos livres dela e não precisaríamos estar discutindo se deve ser privatizada ou não. Isto sim teria sido um sucesso de governo. Mas não deixaram, agora azar.