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Colunista 04/08/2018 16:25
Por: Ângelo Savi
Ângelo Savi

Ângelo Savi

Ângelo Savi é advogado, formado pela UNISC, com pós-graduação em Direito Processual pela mesma instituição. Tem interesse em vários ramos do conhecimento, especialmente História, Política, Filosofia, Literatura, probabilidade, estatística e, mais recentemente, em Economia. Em seus artigos, chama atenção a facilidade com que passa de uma área a outra do conhecimento, aprofundando o tema abordado.

A idiotice

A palavra idiota tem raiz no grego antigo. Era a referência que se fazia a quem não ocupava cargo público. Era o sujeito voltado só para si e não para os interesses da cidade, da amada polis dos gregos. Com o tempo tomou o sentido atual de ignorante, burro, pretensioso, mas há lógica na mudança, porque quem não tem interesse pelo mundo em volta e só vê o próprio umbigo é um idiota nos dois sentidos. Está certo se utilizarmos o sentido antigo, chamando de idiota quem não ocupa cargo público e também está certo no sentido atual se chamarmos de idiota quem não ocupa cargo público. Ironia à parte, a verdade é que o mundo está dominado pelos idiotas. O grande teatrólogo e cronista Nelson Rodrigues, de quem certamente os mais novos - o que para mim é quase toda a humanidade – não ouviram falar, dizia que os idiotas, durante quase toda a história, se limitavam a babar na gravata deixando que os capazes pensassem e fizessem as coisas por eles. Reconheciam-se idiotas e sem importância. Um dia, um idiota subiu num caixote e se pôs a dizer idiotices que foram muito bem acatadas pelos idiotas ouvintes, que foram crescendo geometricamente até que se deram conta da sua superioridade numérica e daí dominaram o mundo.

Idiotices há para todos os gostos.

A semana passada a ministra Cármen Lúcia, exercendo interinamente a presidência da república, assinou um decreto obrigando as empresas que prestam serviço para o governo federal a contratarem um percentual de três a seis por cento do número total de seus empregados entre os presos. Idiotice total. Não que contratar presos seja um mal. Eu mesmo, como advogado, já intercedi inúmeras vezes para obter serviço externo para presos, o que só é possível se houver alguém que queira contratá-los. O problema com o decreto é que ele OBRIGA as empresas a contratar presos. Interfere na condução dos negócios. Impõe custos que nada têm a ver com a economia. Impõe que uma pessoa seja obrigatoriamente selecionada não pela sua capacidade, inteligência, conhecimento ou habilidade específica para um trabalho, mas sim por ter cometido um crime. É muito diferente da situação normal que acontece quando se contrata um preso: o empregador precisa de um determinado serviço que o preso interessado no trabalho externo sabe fazer, e aí o negócio é bom para os dois lados. O patrão consegue uma mão de obra barata, de que precisa, e o preso consegue sair da cadeia para trabalhar, que é o que lhe convém.

A piada pronta: uma das atividades das empresas que prestam serviços para o governo federal é a de vigilância, de modo que um condenado por furto ou roubo pode acabar sendo contratado para ser vigia. Até que faz sentido, pois para se exercer o ofício de ladrão é preciso conhecimento específico de como roubar, ele – ladrão - deve ser quem melhor sabe como se evita um furto ou roubo.

O decreto é tão destemperado que se pode imaginar a situação absurda de que em algum lugar uma empresa não consiga contratar com o governo federal, por não ter presos suficientes para preencher a cota obrigatória. É que são precisos certos requisitos para que os condenados consigam o direito ao trabalho externo. Mas uma coisa é certa: em Brasília não haverá falta de ladrões para cuidar dos bens alheios.