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Colunista 05/02/2018 16:51
Por: Flavio Williges
Flavio Williges

Flavio Williges

Flavio Williges é professor do Departamento de Filosofia da UFSM. Está em estágio de pós-doutorado na University of California, em Davis, como bolsista da Fundação CAPES. Interessa-se por filosofia das emoções, teorias éticas e psicologia moral. Escreverá sobre cinema, literatura e conduta da vida em geral.

Nossa única e grande tarefa

Nossa única e grande tarefa

Durante algum tempo, enquanto lecionava no Curso de Filosofia da Unisc, em Santa Cruz do Sul, mantive uma coluna no jornal local. Recebi muito carinho das pessoas da cidade e também críticas. Foi bom apresentar ideias filosóficas para um público mais amplo e aprender a conviver com divergências de opinião e posições. A atenção ao argumento racional, o confronto saudável de ideias é uma das marcas do pensamento filosófico e, acredito, a única alternativa viável para construir respostas sensatas para os problemas da vida. Recebi, agora, com muita alegria, o convite de Luciano Mallmann para colaborar no jornal Folha de Candelária. Gostaria de iniciar falando de uma certa forma de entender nossas responsabilidades e compromissos com outras pessoas. A perspectiva que comentarei está centrada no desejo de respostas violentas para os problemas da vida social, a qual, tristemente, tem encontrado no sul do Brasil o seu solo mais atrativo.

O Brasil tem sido palco de tensão e de ódio, motivado principalmente por insatisfação política. Um dos candidatos mais bem posicionados na disputa da presidência, Jair Bolsonaro, tem manifestado posições agressivas e violentas sobre vários temas. Imagino que ele não tenha nenhuma preocupação com o destino das crianças abandonadas, que esperam adoção em abrigos. Também nunca o vi preocupado com doentes que sofrem em hospitais ou com aqueles que, por alguma razão, ficaram para trás, os pobres e esquecidos, que o mundo despreza.

Ele também não parece sentir nenhuma dor ou remorso quando defende abertamente ideias racistas e sexistas, como a inferioridade das mulheres em relação aos homens e dos negros em relação aos brancos. Ou ideias violentas, muito perigosas, como armamento, a tortura e o estupro. Ele parece acreditar que um mundo bom deve ser formado exclusivamente por famílias brancas, com mãe e um pai no comando, armadas, sem nenhuma fraqueza, nenhum limite ou tropeço. Nunca ouvi uma palavra de amor e de compreensão, de bondade, saindo de sua boca. Não vejo nas palavras dele a emoção do amor e a valorização da experiência de dividir a vida com aqueles que amamos, pessoas que lutam e nem sempre vencem suas fraquezas, que têm limitações ou são simplesmente diferentes. O homem que pode vir a ser nosso presidente tem na fala agressiva e destruidora, de desprezo pelos outros e desdém pelas ações do amor, seu principal foco de atenção.

Vocês podem pensar que isso não é importante. Que os pensamentos que alimentamos e espalhamos no ar não têm força. Não é verdade. Nossos pensamentos são poderosos. Mas eles não florescem sozinhos. Precisam de ajuda. É importante, então, cuidar daquilo que pensamos e tentar descobrir por que ideias tão assustadoras têm recebido tanto apoio. A resposta, creio, envolve três fatores principais.

1) Parte das pessoas tem um coração violento e cruel. Elas são atraídas pela maldade.

2) Parte das pessoas não se importa mais com fatos, com a seriedade das palavras e nem com o sofrimento que podem causar.

Esses dois primeiros pontos são preocupantes. Nenhuma sociedade com pessoas saudáveis e felizes foi construída sem a presença da compreensão, da bondade, com pensamentos ponderados, principalmente de seus governantes.

Há, no entanto, uma terceira razão que tem reforçado o apelo ao autoritarismo e às ideias violentas e que deveria ser melhor considerada, pois essa diz respeito a todos nós e à viabilidade da nossa vida:

3) A corrosão do nosso sistema de valores morais. Virtudes cívicas como o respeito pelo bem comum, o amor à república, o respeito pelas pessoas, sua intimidade e seus bens, perderam muito espaço entre nós.

Há muitos exemplos disso. Pense nas vezes em que você gostaria de passear à noite, mas fica em casa, por achar perigoso. Ou queria viajar, mas precisa pagar alguém para vigiar sua casa. Cidades, casas, passeios, trabalho, são espaços de convívio, deveriam ser vividos em paz, mas tornou-se arriscado ou preocupante fazer aquilo que se espera de qualquer ser humano: que possa desfrutar sua vida e os frutos do seu trabalho. O exemplo mais dramático dessa dimensão de enfraquecimento de nosso respeito às regras comuns da vida, por ser um espaço de formação e criação da personalidade, encontra-se nas escolas. Seguidamente assistimos cenas de adolescentes agredindo professores (física ou verbalmente), que não conseguem fazer silêncio e ouvir, o que, por fim, resulta no ataque às próprias escolas, que muitas vezes são assaltadas ou vandalizadas.

Há muita coisa envolvida na desvalorização do conhecimento, do bem comum, da confiança nas instituições. Mas eu queria apenas lembrar que as pessoas que lamentam esse tipo de decadência moral estão certas. É horrível viver num mundo onde falta respeito pelo conhecimento, ou proteção às pessoas e as coisas. Também queria lembrar que estão erradas aqueles que encontram na violência e no autoritarismo a resposta. “Arrebentar a pau”, “fuzilar esses vagabundos”, alguns dizem, pensando principalmente em jovens pobres, da periferia das cidades, que são já alvo de todo tipo de problema.

Sociedades e seres humanos são sistemas complexos. Não há saídas simples.

Se você tem alguma expectativa de melhorar sua cidade ou país, não acredite que batendo, espancando, nossos problemas serão resolvidos. As soluções existem, são complicadas e pedem seriedade e equilíbrio. Elas passam por uma avaliação profunda, diária, da nossa própria maldade, do nosso desejo de evitar os outros ou fazê-los sofrer ou de não considerar como nossos pensamentos podem fazer o mundo ser pedra e espinho, quando poderia ser flor.

Desejar e espalhar o mal é fácil. Fazer do mundo um lugar bom, com pensamentos e ações, é difícil. Mas é nossa única grande tarefa.