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Colunista 13/01/2018 19:38
Por: Guilherme Brambatti Guzzo
Guilherme Brambatti Guzzo

Guilherme Brambatti Guzzo

Guilherme Brambatti Guzzo nasceu em Sananduva/RS, é biólogo e professor. Atualmente, é docente no curso de Ciências Biológicas da Universidade de Caxias do Sul e cursa doutorado em Ensino de Ciências e Matemática pela PUCRS. A coluna tratará de livros e discutirá temas relacionados à educação e às ciências.

O mundo que entregamos à Olívia (e o que ela e a sua geração pensarão dele)

O site Ask a Philosopher (http://askaphilosopher.wordpress.com) é um espaço no qual leitores de todo o mundo podem postar perguntas sobre os mais variados temas, que então são respondidas por destacados filósofos contemporâneos. Uma das minhas questões favoritas é a seguinte:

Hoje em dia, pensamos que a escravidão é algo errado e bárbaro, embora ela já tenha sido considerada perfeitamente aceitável em algumas sociedades. É possível que, no futuro, algo que pensamos ser bom hoje possa ser julgado da mesma maneira que ocorreu com a escravidão? Você pensa em alguns exemplos disso?

Penso nessa pergunta com alguma frequência porque ela trata de um dos temas que considero mais relevantes: o progresso moral da humanidade. E tenho refletido sobre isso depois que a Olívia, minha filha, veio ao mundo, no dia 9 de dezembro do ano passado. Como será que a Olívia, e as pessoas de sua geração, irão responder à pergunta acima? Ou, melhor, em três ou quatro décadas, o que elas pensarão sobre o mundo que lhes entregamos hoje e as coisas que temos feito nele (e com ele)?

Massimo Pigliucci, o filósofo responsável pela resposta no Ask a Philospher, indicou o tratamento dado aos animais que utilizamos como alimento como um comportamento que provavelmente será revisado no futuro. Eu tendo a concordar com ele: embora tenhamos avançado bastante em atitudes e leis referentes ao bem-estar animal nas últimas décadas, creio que as pessoas que estão chegando ao mundo provavelmente terão mais coragem e disposição do que nós para refletir com mais sensatez sobre o sofrimento que temos causado aos animais não humanos. Penso que haverá um número maior de pessoas inclinadas a abandonar o consumo de carne e de outros derivados de animais (o que eu não consegui até o momento), e outras que investirão seu tempo e conhecimento para apresentar alternativas viáveis ao uso de animais, não apenas na alimentação (já há coisas muito interessantes surgindo, como carne feita a partir de células-tronco, que deverá chegar ao mercado por um preço razoável em poucos anos).

Tenho outros candidatos a temas para os quais a Olívia e sua geração conseguirão pensar com maior clareza do que nós e, por isso, dedicarão a eles uma atenção maior do que a nossa. Vou tratar brevemente de dois: liberdades individuais e o cuidado com o meio ambiente. No que diz respeito a liberdades individuais, houve melhoras significativas nas últimas décadas em grande parte do mundo. Hoje em dia, mulheres podem votar nos países democráticos, e seria uma abominação se alguém propusesse eliminar o direito ao voto feminino. Da mesma maneira, a maior parte de nós, nos dias atuais, trata como abominações coisas como a defesa da escravatura, a queima de mulheres por supostamente serem bruxas, a criminalização de pessoas por serem homossexuais e o apedrejamento de mulheres sob a acusação de adultério (apesar de que as últimas duas ainda acontecem em alguns locais do mundo).

Apesar das inegáveis mudanças positivas, ainda temos muito a avançar no que se refere ao respeito à vida das pessoas. Não consigo conceber, por exemplo, a fortíssima rejeição à ideia de união civil entre indivíduos do mesmo sexo, muito presente hoje. Se dois adultos querem, de vontade mútua, ficar juntos e oficializar a sua situação de casal, usufruindo dos benefícios legais de tal união, qual o problema?

Sobre o meio ambiente: antes de eu começar a escrever este texto, assisti a um pequeno vídeo da BBC que tratava da dificuldade que tartarugas fêmeas têm de voltar ao mar após desovarem em uma ilha próxima à Austrália. O motivo é a enorme quantidade de lixo que existe no local. Assim, as fêmeas (e, depois, os seus filhotes) precisam caminhar pela areia, desviando e lutando contra pedaços de plástico, redes de pesca, metais e outros tantos resíduos que chegam até a ilha, trazidos por correntes marítimas a partir de outros lugares do mundo. Este é um exemplo, entre incontáveis outros, de como estamos tratando mal nosso planeta. Não sei se é um exagero meu (afinal, sou biólogo), mas o fato de não conseguirmos nos revoltar com o nosso descaso com a Terra (a ponto de agirmos com eficiência para minimizar problemas como o do lixo nos oceanos e as mudanças climáticas) será uma boa razão para as gerações futuras olharem com vergonha para nós: “Como puderam se importar tão pouco?”

Não sei se a Olívia vai se preocupar com todas essas coisas, e parece algo muito pretensioso da minha parte – e talvez um fardo para ela – esperar que ela pense sobre tudo isso. De qualquer maneira, entendo que na geração da Olívia haverá uma proporção maior de pessoas atentas a temas relevantes para a vida individual, social e para o mundo. Talvez essa afirmação envolva um tanto de pensamento mágico da minha parte, mas vejo que cada vez mais existem indivíduos dispostos a refletir sobre problemas que até então não preocupavam a maior parte da sociedade. Creio que perguntas do tipo “Isso é o que as pessoas costumam pensar, mas é verdade?”, e “As coisas sempre foram assim, mas devem continuar assim?” serão feitas com maior frequência do que são hoje.

Se não me engano, foi Barack Obama quem disse que a passagem do cargo de um presidente a outro é como uma corrida de revezamento: você dá o máximo que pode no tempo em que está com o bastão na mão, e o passa adiante torcendo para que o seu próximo companheiro de equipe consiga correr melhor do que você. No caso da passagem das gerações, me parece que a metáfora é um pouco diferente. O papel da geração a que pertenço não é apenas passar o bastão para a Olívia e as pessoas de sua época. Nós vamos, espero, correr juntos por um bom tempo, nos ajudando, ensinando e aprendendo uns com os outros, trabalhando juntos, trocando ideias e fazendo o melhor possível para que, no momento em que os mais jovens tomarem definitivamente o bastão de nossas mãos, eles estejam em uma boa condição para fazer do mundo um lugar melhor do que aquele que receberam de nós.