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Colunista 25/08/2017 17:19
Por: Guilherme Brambatti Guzzo
Guilherme Brambatti Guzzo

Guilherme Brambatti Guzzo

Guilherme Brambatti Guzzo nasceu em Sananduva/RS, é biólogo e professor. Atualmente, é docente no curso de Ciências Biológicas da Universidade de Caxias do Sul e cursa doutorado em Ensino de Ciências e Matemática pela PUCRS. A coluna tratará de livros e discutirá temas relacionados à educação e às ciências.

A Magia da Realidade

No início de 2010, a capital do Haiti, Porto Príncipe, foi devastada por um terremoto de grande magnitude, cujo epicentro foi a cerca de 25 km da cidade. A estimativa do governo haitiano é de que tenham morrido cerca de 200 mil pessoas, e mais de 250 mil construções foram destruídas na ocasião, em sua maioria residências. Até hoje o país luta para reconstruir os estragos materiais provocados pelos tremores.

Explicações para eventos como um terremoto eram motivo de especulação há alguns séculos. No Japão, país que também tem um histórico de tremores de grande magnitude, um mito era apresentado para explicar esses acontecimentos. De acordo com a história, nosso planeta flutuava nas costas de um bagre gigante, e toda vez que ele balançava a cauda, a superfície da Terra tremia. Na Nova Zelândia, os nativos acreditavam em uma Mãe Terra grávida, e os movimentos do bebê em seu útero eram a causa dos sismos que aconteciam no país.

Hoje, a ciência apresenta explicações bem fundamentadas para vários fenômenos naturais, como os terremotos. Sabe-se que nosso planeta está assentado sobre uma camada de rochas (litosfera), que se divide em partes menores, denominadas placas tectônicas. Essas placas se movimentam lentamente, e esses movimentos provocam deformações nas grandes massas de rocha. Quando a resistência da rocha maior é superada, ela se rompe e libera a energia acumulada sob a forma de ondas, que se espalham pela terra e a fazem vibrar, causando um terremoto. De maneira geral, acontecimentos como o do Haiti tiveram uma sequência de eventos semelhante a essa.

Mitos e lendas têm servido a inúmeros povos como fonte de explicação para os mistérios da vida. Terremotos, a existência do arco-íris, do sol e da lua, a origem da vida, entre outros, são fenômenos que sempre fascinaram as pessoas. Na ausência de equipamentos e métodos adequados para buscar mais informações sobre tais eventos, nós especulamos e inventamos histórias a respeito de como eles poderiam acontecer.

A ciência, nos últimos séculos, tem sugerido que a realidade, em muitos casos, é diferente das histórias criadas por nossos antepassados. Ao invés dos antigos pensamentos mágicos, com anjos, demônios, assombrações e monstros, os avanços científicos nos trouxeram outro tipo de magia, a magia da realidade. Através da ciência pudemos entender melhor as origens do universo, de nosso planeta, e da vida aqui na Terra, incluindo a da nossa própria espécie. Há algo mais extraordinário do que isso?

O biólogo inglês Richard Dawkins apresenta as principais ideias da ciência a respeito de diversos fenômenos naturais de uma forma agradável de se ler em “A Magia da Realidade: como sabemos o que é verdade” (Cia das Letras, 2012), uma obra ricamente ilustrada por Dave McKean. Dawkins inicia os capítulos contando mitos antigos sobre a natureza da vida e do universo, para depois apresentar a palavra da ciência sobre esses acontecimentos. Há quem imagine que a ciência tira a beleza da vida ao explicá-la. Dawkins não concorda, e afirma o oposto:

“A verdade tem sua própria magia. Ela é mais mágica – no melhor e mais fascinante sentido dessa palavra – do que qualquer mito, mistério ou milagre inventados. A ciência tem sua própria magia: a magia da realidade”.