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Colunista 12/04/2020 17:57
Por: Ângelo Savi
Ângelo Savi

Ângelo Savi

Ângelo Savi é advogado, formado pela UNISC, com pós-graduação em Direito Processual pela mesma instituição. Tem interesse em vários ramos do conhecimento, especialmente História, Política, Filosofia, Literatura, probabilidade, estatística e, mais recentemente, em Economia. Em seus artigos, chama atenção a facilidade com que passa de uma área a outra do conhecimento, aprofundando o tema abordado.

O método de solucionar problemas mediante uma solução simples, elegante e completamente errada

É bastante curioso este método de arruinar o país para salvar vidas. Não se trata de quarentena como andam dizendo, porque quarentena é o período que a tripulação de um navio fica isolada, sem poder atracar no porto se houver suspeita de estar afetada com alguma doença contagiosa. Na quarentena só os que estiverem possivelmente contaminados ficam isolados, e não toda a população. O que está acontecendo é uma imposição arbitrária de prisão domiciliar a todos E que irá arrasar o país.

Duvido dos especialistas? Sim, duvido, porque a pretensa solução é irracional. Hoje, dia 6 de abril, quando escrevo este texto, morreram menos de 500 pessoas no Brasil em duas semanas de enclausuramento. No estado morreram menos de 10 pessoas e aqui em Candelária nenhuma. Que pandemia é esta?

No mesmo período, devem ter morrido mais de duas mil pessoas por erro médico. Quem diz é o II Anuário de Segurança Assistencial Hospitalar, que estudou quatrocentos e cinquenta mil casos de óbitos ocorridos em hospitais, constatando que só em 2017 cinquenta e quatro mil pessoas morreram por erro médico. A cada seis mortes, segundo o Anuário, quatro poderiam ter sido evitadas. Não acredita? A informação está no site da Câmara dos Deputados, é só clicar no Google que se acha facilmente.

E não consta que tenha causado maiores preocupações na mídia e no governo. Então, se ocorrem por ano sessenta mil homicídios, quarenta mil mortes por acidente de trânsito e mais de cinquenta mil por erro médico, não há como compreender a histeria que se instaurou. Comparando as mortes por erro médico e o coronavirus, e sob o mesmo raciocínio de impor a restrição a toda atividade para evitar mortes, então teríamos com muito mais razão que impedir o povo de ir aos hospitais. Seriam evitados cinquenta mil óbitos por ano, número muitíssimo maior do que as que irão ser causadas pelo coronavirus.

Não se trata de negar a gravidade da doença causada pelo vírus chinês, nem defender a inação. É evidente que ela é grave e qualquer um corre risco de vida, principalmente os velhos e debilitados, segundo a unanimidade das informações.

Mas aí que a coisa toda fica mais difícil ainda de se compreender. Se há um grupo bem definido de pessoas vulneráveis, inclusive com a repetição ad nausean que crianças e indivíduos de até quarenta anos têm uma taxa de mortalidade desprezível, qual é o sentido de prender quase toda a população indiscriminadamente e de se parar com quase toda a atividade econômica?

Sim, há o perigo de contágio, mas havendo ainda algum comércio funcionando - como mercados - todo mundo está exposto. O isolamento vira balela, porque há contato direto ou indireto entre todas as pessoas para pelo menos comprar comida.

E a suposição de que o sistema hospitalar não tem condições de atender um aumento brusco de internações também não pode ser aceita como motivo para o isolamento, porque é precisamente para solucionar problemas deste tipo que existe o governo.

Não se pode aceitar que seja imposto unicamente à população o ônus de cortar a corrente de contágio mediante a simplista e ruinosa prisão domiciliar. E muito menos que simplesmente cesse a atividade econômica o que empobrecerá violentamente o país e que será causa de uma infinidade de outras desgraças, inclusive mais mortes.

Em Hong Kong, segundo dados de 31 de março, para uma população total de sete milhões de habitantes, uma das mais altas densidades populacionais do mundo, com 7 mil pessoas por quilômetro quadrado, ocorreram quatro mortes por coronavirus. Lá não foi tomada nenhuma medida oficial de contenção, todos continuaram vivendo normalmente e a única coisa que a população fez voluntariamente foi usar máscaras.

A frase que usei no título de que para todo problema complexo há uma solução simples, elegante e completamente errada é de H. L. MENCKEN. Se não conhece, procura na internet. Vale a pena, não só pela hilaridade como também pela veracidade de seus ditos, como infelizmente está ocorrendo neste momento com a absurda e completamente errada solução dada à epidemia do coronavirus.