Logo Folha de Candelária
Colunista 25/09/2018 15:25
Por: Guilherme Brambatti Guzzo
Guilherme Brambatti Guzzo

Guilherme Brambatti Guzzo

Guilherme Brambatti Guzzo nasceu em Sananduva/RS, é biólogo e professor. Atualmente, é docente no curso de Ciências Biológicas da Universidade de Caxias do Sul e cursa doutorado em Ensino de Ciências e Matemática pela PUCRS. A coluna tratará de livros e discutirá temas relacionados à educação e às ciências.

A importância das questões que raramente fazemos a nós mesmos

Uma reportagem recente do jornal Zero Hora mostra aquilo que podemos chamar da “história de conversão” de Hernán Mostajo, fundador do Museu Internacional de Ufologia Victor Mostajo (hoje Museu Internacional de Ufologia, História e Ciência Victor Mostajo), em Itaara (RS). O título da matéria, “O ufólogo arrependido”, já é suficiente para que entendamos a mudança na relação de Mostajo com os discos voadores: de um entusiasmado ufólogo, ele é agora um cético cuidadoso com as afirmações que faz sobre as possíveis visitas de extraterrestres ao nosso planeta.

Me interessei especialmente pela história de Mostajo por duas razões. A primeira delas é que a trajetória dele é bastante semelhante à minha. Quando eu era adolescente, lia tudo o que encontrava sobre discos voadores, recortava notícias de jornais e revistas sobre avistamentos de óvnis, tinha uma confiança enorme de que os relatos de pessoas abduzidas representavam aquilo que havia verdadeiramente acontecido com elas, e ficava pensando até quando os governos das potências mundiais iriam conseguir acobertar fatos inegáveis, como a queda de uma nave alienígena tripulada em Roswell, nos Estados Unidos. E, como Mostajo, comecei a ler sobre ciência, conheci autores como Carl Sagan e, lentamente, a minha maneira de pensar sobre o assunto foi sendo modificada. Quanto jovem, eu tinha enorme convicção na existência de alienígenas inteligentes que viajam até a Terra – e aqui fazem coisas como círculos em plantações e abduções de pessoas. Hoje, sou bastante cético quanto a essa possibilidade.

A segunda – e mais importante – razão pela qual a conversão de Mostajo me atraiu foi a de que um fato assim não costuma ser frequente. Qualquer um de nós, obviamente, muda de opinião sobre uma série de coisas na vida. No entanto, quanto mais investimos tempo, dinheiro, nossos esforços, e quanto mais emocionalmente ligados a uma certa questão nós estamos, mais difícil é considerar que podemos estar errados sobre ela. Algumas de nossas crenças são tão fundamentais para nós que acabam fazendo parte daquilo que somos. Por isso, é doloroso pensar na possibilidade de levarmos a vida sem elas.

Pensemos no caso de Mostajo: um apaixonado pelo assunto desde a adolescência, ele dedicou uma década e meia de sua vida à ufologia, certamente gastou seu dinheiro para comprar livros e outros materiais sobre extraterrestres, investiu seu tempo e recursos para viajar para conferências e para verificar in loco casos envolvendo óvnis, defendeu a crença em discos voadores contra céticos chatos que vivem pedindo melhores evidências para elas, e criou um museu para divulgar o assunto entre o público geral. Considerando esse cenário, Mostajo não parecia ser um candidato natural para revisar a sua crença em alegações ufológicas. Mas foi exatamente isso o que ele fez.

A reportagem de Zero Hora sugere que a reavaliação de crenças de Mostajo fez com que ele se tornasse uma pessoa cética com relação à maioria das histórias que envolvem discos voadores, embora ele ainda conceda que algumas delas possam ser verdadeiras. Nisso, aparentemente, divergimos. Eu assumo que todos os relatos sobre discos voadores e ETs que conhecemos até o momento são mais adequadamente explicados sem que recorramos à ação dos próprios alienígenas. No entanto, não considero minha história com os extraterrestres encerrada: posso mudar de opinião se surgirem boas evidências que indiquem que eles estão entre nós. E, pelo que percebi na reportagem, Mostajo mantém uma postura parecida.

No processo de transição ufólogo-cético, Mostajo propôs a si próprio algo que, suspeito, muitos de nós não estamos habituados a fazer: questionar as bases sobre as quais nossas crenças e opiniões se apoiam. Em outras palavras, não temos o costume de frequentemente desafiar aquilo que sabemos (ou presumimos saber) sobre qualquer tema, especialmente aqueles que são importantes para nós e para outras pessoas. Além disso, tampouco pensamos nas condições em que nossas ideias sobre um assunto poderiam se mostrar equivocadas: se eu aceito como fato que abduções alienígenas ocorrem, que tal perguntar a mim mesmo “que tipo de evidência eu preciso para mudar de opinião sobre isso?” A questão vale também, claro, se eu acredito que extraterrestres não têm sequestrado terráqueos.

Com o aumento da comunicação via redes sociais, conseguimos observar melhor como ocorrem as interações entre as pessoas nelas, e um ponto que chama a minha atenção é a necessidade que alguns de nós temos em expressar opiniões com uma suposta autoridade sobre quaisquer assuntos. Sabemos tudo, e nos tornamos especialistas em praticamente qualquer área. Recentemente, por exemplo, vimos ativistas de direita sendo mais rápidos e eficientes do que peritos criminais ao concluir apressadamente que o ataque à caravana de Lula foi orquestrado pelos próprios correligionários do ex-presidente. Do outro lado, ativistas de esquerda outorgaram a si próprios o título de experts em medicina e cirurgia torácica ao apontar, contra todas as evidências razoáveis, que o ataque a Jair Bolsonaro fora uma farsa.

“O que eu quero acreditar baseado em emoções e o que eu deveria acreditar baseado em evidências nem sempre coincidem”, escreve o autor Michael Shermer[i], que conclui afirmando que ele próprio é um cético porque não tem por objetivo acreditar nas coisas, mas saber mais sobre elas quando está refletindo a respeito de alguma questão. Seguindo Shermer, entendo que precisamos ter cuidado para não nos apressar em estabelecer posições firmes quando não temos boas razões para elas, e também não ter confiança excessiva em nossas opiniões, considerando que elas podem estar equivocadas. Mas como podemos saber que não sabemos tanto quanto imaginamos? Como podemos saber que estamos errados sobre algum assunto? Um bom início é ponderar sobre essas duas questões, e aplicá-las com frequência para aquilo que consideramos importante para nós.

Pensar sobre como nós pensamos e ter o costume de questionar como e o quanto sabemos sobre um dado tópico são habilidades fundamentais para consumidores de informação online. As redes sociais que utilizamos são um festival de informações falsas do qual participamos sempre que compartilhamos alguma notícia sem refletir adequadamente sobre a sua plausibilidade. “Como eu sei disso?” e “Como eu posso saber que estou errado sobre isso?” são perguntas básicas, que deveriam surgir automaticamente em nossa mente antes de clicarmos no botão “compartilhar” ou antes de xingarmos alguém com quem temos uma discordância (o que parece ser difícil, ainda mais às vésperas de uma eleição). Com isso, não apenas poupamos nossos amigos virtuais de receberem informações de qualidade duvidosa e minimizamos a chance de que conflitos inúteis ocorram, mas também abrimos a possibilidade de refletir sobre as ideias nas quais acreditamos. Talvez não façamos como Mostajo, que modificou substancialmente o que pensava sobre um tema muito caro a ele, mas isso não é o mais importante. O que interessa, fundamentalmente, é que o hábito de questionar a qualidade e a confiabilidade das bases que sustentam nossos pontos de vista abre uma série de possibilidades que raramente se apresentam às mentes mais dogmáticas: expandir nosso conhecimento sobre as coisas do mundo é uma delas; ter a disposição de dialogar com pessoas que pensam de forma diferente de nós, e estar disposto a aprender com elas, é outra.

Não sou inocente a ponto de afirmar que é fácil fazer um exame rigoroso de nossas crenças, e também sei que muitas vezes não estamos dispostos a aprender com os outros, ainda mais se eles têm pontos de vista distintos dos nossos. Mas, como histórias como a de Mostajo nos mostram, há circunstâncias nas quais as pessoas podem analisar honestamente aquilo em que acreditam, por mais estimada que seja a sua crença, e talvez mudar de opinião a partir disso. Os direitos à opinião e à livre expressão estão amplamente consagrados, mas que tal unirmos a eles a virtude (ou dever?) de refletir sobre as coisas nas quais acreditamos?

 

[i] https://michaelshermer.com/2009/07/i-want-to-believe/