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Colunista 20/08/2021 16:01
Por: Ângelo Savi
Ângelo Savi

Ângelo Savi

Ângelo Savi é advogado, formado pela UNISC, com pós-graduação em Direito Processual pela mesma instituição. Tem interesse em vários ramos do conhecimento, especialmente História, Política, Filosofia, Literatura, probabilidade, estatística e, mais recentemente, em Economia. Em seus artigos, chama atenção a facilidade com que passa de uma área a outra do conhecimento, aprofundando o tema abordado.

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Uma apresentadora de uma grande rede de televisão comenta as cenas deprimentes dos afegãos tentando fugir dos Talibãs (Taliban, Taleban?) e lá pelas tantas, entre muitas platitudes desnecessárias (porque as imagens não deixam dúvida sobre o desespero e o medo dos pobres afegãos), ela diz com um semblante em que se misturava um ar de severidade com censura que “além do mais eles estavam sem máscara”. Outra apresentadora da mesma rede, trajando vestes típicas das mulheres afegãs, mas americana e diretamente de Cabul, mostra imagens de Talibãs gritando e traduz o que eles dizem: “Morte à América, morte à América”. Logo a seguir fala candidamente que apesar de tudo eles “parecem amistosos.”

Até ontem, opinião era afirmar algo, admitindo a possibilidade de estar enganado. Era mais do que a ignorância e a dúvida, mas era menos do que a certeza. Mas ela - opinião - subiu de categoria, desbancou a certeza e tomou seu lugar. E o melhor de tudo é que se democratizou. Todos têm opinião sobre tudo, principalmente o idiota, que, como disse Nelson Rodrigues, até o século 19, era o primeiro a saber-se idiota. Não pensava, se limitando a babar na gravata, deixando que os melhores pensassem por ele. Mas como são muitos, com base na sua superioridade numérica tomaram conta do mundo. Nelson Rodrigues dizia que certo dia um idiota resolveu testar o poder da quantidade da sua classe, subiu num caixote e fez um discurso. Em quinze minutos havia meio milhão de outros idiotas mugindo em volta.

As opiniões das apresentadoras são típicas de idiotas. Foram contratadas para opinar e noticiar, embora não tenham capacidade para ter ideias próprias e, por isto mesmo, não tem critério para discernir o que é uma cretinice do que é verdadeiro ou certo. Isto as leva a adotar as que são acessíveis à sua incapacidade. O mais sábio pode errar e, de fato, erra. Mas uma coisa é errar acidentalmente, outra é errar sistematicamente ou pior ainda, deliberadamente. Porque é preciso ser mais do que burro para censurar por não usar máscara quem está na iminência de ser morto por facínoras consumados ou acreditar que há compatibilidade em querer a destruição de um país e ser amistoso. O que ela pensará quando um Talibã a estiver degolando?

De modo que a verdadeira notícia não foi que os afegãos estavam sem máscaras ou que os Talibãs são amistosos; foi que os idiotas venceram.