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Colunista 15/11/2019 19:19
Por: Ângelo Savi
Ângelo Savi

Ângelo Savi

Ângelo Savi é advogado, formado pela UNISC, com pós-graduação em Direito Processual pela mesma instituição. Tem interesse em vários ramos do conhecimento, especialmente História, Política, Filosofia, Literatura, probabilidade, estatística e, mais recentemente, em Economia. Em seus artigos, chama atenção a facilidade com que passa de uma área a outra do conhecimento, aprofundando o tema abordado.

A síndrome de vira-latas

Perdi minha carteira. Não sou propenso a esquecer ou perder coisas, mas desta vez perdi. Como acontece normalmente, a carteira não é o maior problema, mas sim o que tinha dentro dela, principalmente a maldita carteira de motorista. Carteira de motorista não serve para nada para quem é obrigado a usá-la. Não serve nem como atestado de competência no volante, haja vista a quantidade de acidentes que ocorrem e a evidente imperícia de muitos motoristas que andam por aí. Carteira de motorista só serve para o estado prender o carro em que andamos se não estivermos com ela. E claro, cobrar por não fazermos o que ele manda. De modo que tratei de tirar a segunda via da carteira de habilitação, momento em que o Brasil entrou em ação naquilo que é o seu único propósito que é o de infernizar a vida dos brasileiros.

Fui ao Detran e lá me informaram que eu tinha que levar um comprovante de residência, certidão de ocorrência policial e um documento com foto. Ou seja, para o Detran todos são mentirosos, pois não basta que eu diga onde moro, tenho que provar. Também não basta dizer que perdi os documentos, tenho de fazer uma certidão de ocorrência policial, que não serve para nada, a não ser para me dar trabalho. E a condição de apresentar um documento quando justamente estou pedindo um novo porque perdi os que tinha não é só idiotice, mas também um refinado sadismo inventado por uma mente diabólica. Tentei explicar para a moça que me atendeu que eu estava pedindo a segunda via da carteira porque tinha perdido TODOS meus documentos, mas não adiantou. Ela foi intransigente e me disse que então eu teria que primeiro tirar uma nova carteira de identidade.

Não me conformei e me pus a procurar por um documento que estivesse esquecido em alguma gaveta e depois de muito revirar guardados acabei achando uma identidade tão velha que não conheci a minha própria cara. Não acreditei que eu era o sujeito que me olhava do fundo da carteira velha, mas como era o meu nome que estava escrito nela, acabei me convencendo que era eu mesmo.

Feliz da vida com o achado fui registrar a ocorrência na Delegacia Virtual. Não vou descrever a dificuldade em fazer o registro, porque neste caso este artigo iria tomar todo o espaço do jornal. Desisti da internet e fui fazer a ocorrência diretamente na delegacia, mas não foi possível porque os policiais estão em greve. Quase desistindo, pedi para uma amiga – que tem esperteza em lidar com sistemas da internet - para que ela fizesse a ocorrência para mim. Ela conseguiu, mas depois de muito, muito, sofrimento, logo ela, que, como disse, é espertinha em resolver dificuldades informáticas. Imprimi a ocorrência e com o ânimo um pouco recuperado voltei ao Detran, achando que agora conseguiria pelo menos encaminhar o pedido da nova carteira. Ingenuamente esqueci que o Detran foi criado com dois objetivos: 1) extorquir nosso dinheiro e 2) criar dificuldades para os infelizes que precisam dos seus serviços(?).

Para o Detran a mera impressão da comunicação de ocorrência não serve. É preciso a ocorrência oficial, que só será feita quando a polícia me enviar um e-mail comunicando que o registro foi aceito ou coisa que o valha, ocasião em que deverei ir pessoalmente à delegacia para sei-eu-lá-o-quê. Aquela minha amiga, ironicamente, me disse que há duas semanas ela havia feito uma comunicação de outro fato e até agora sequer havia recebido o tal e-mail. Aí eu desisti de tirar a segunda via da carteira de motorista.

Esta história serve para provar que o Brasil foi construído com o objetivo de criar dificuldades para seus habitantes. Sempre que tivermos um problema, por mais simples, como uma segunda via de uma carteira de motorista, é certo como a morte que o Brasil vai intervir para torná-lo muito maior. Para o estado, quem tem a infelicidade de nascer no Brasil é um misto de palhaço e vassalo cujas finalidades da existência são a de ser espezinhado e extorquido. É por isto que um dos traços mais deploráveis da personalidade do brasileiro é o viralatismo. Somos desde sempre condicionados a sermos maltratados pelo estado, de modo que nem conseguimos nos indignar. É tão corriqueiro o abuso, o desrespeito, o absurdo, a imbecilidade das determinações governamentais que não nos apercebemos que, apesar de tudo isto ser comum, não é normal.

É por isto também que o Brasil não pode ser melhorado. Não se melhora o que estragou. É preciso extinguir o que existe e principiar do zero, começando por deixarmos de ser vira-latas.