Logo Folha de Candelária
Colunista 24/06/2017 13:10
Por: Marcos Rolim
Marcos Rolim

Marcos Rolim

É jornalista, sociólogo e político, atuando também como professor universitário e consultor em segurança pública e Direitos Humanos. Formado em Jornalismo pela UFSM, cursou mestrado e doutorado em Sociologia pela UFRGS. É professor de Direitos Humanos do Centro Universitário Metodista. Atualmente, é coordenador de Comunicação Social do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul e membro do Conselho Nacional de Política Criminal. Colunista da Zero Hora, escreve sobre política e sociologia.

Despachá-lo-emos?

(Publicado originalmente em ZH de 20/21 de maio)

O que se viu até agora, com a delação da JBS, reforça a noção de que o Brasil tem sido governado por diferentes quadrilhas cujos discursos e mesmo as diferenças reais que as separam servem, sobretudo, para as disputas pelo Poder, não para a definição de reformas ou de rumos para o País. Ao longo de décadas, desde antes da ditadura, o crime organizado politicamente (simbiose entre corruptos públicos e corruptores particulares) opera a máquina do Estado a partir de lógicas privadas para proteger os interesses do rentismo e dos grandes grupos econômicos. Os governos nacionais da trinca PSDB-PMDB-PT integram esse movimento histórico e brigam pelo butim. Os demais partidos tradicionais se deslocam, na medida dos seus interesses, em torno das facções hegemônicas, disputando fatias do Estado para alavancar objetivos igualmente não-republicanos. Essa é a dinâmica maior que engolfa como uma onda os projetos sérios e as pessoas decentes que habitam a esfera pública em número cada vez menor.

Vale prestar atenção na gravação em que Aécio Neves pede dois milhões para Joesley Batista. Ali, temos a lógica maior revelada sem disfarces e platitudes. Aécio reclama dos “vazamentos” da Lava Jato. “Essa porra toda é uma ilegalidade”, diz. Sustenta, então, que a estratégia era aprovar a anistia ao caixa 2. “O PSDB vai assinar, o PMDB vai assinar o PT vai assinar, tá montada”. Então, Aécio sugere que o empresário pressione Rodrigo Maia. “Cê tem ajudado esses caras pra caralho, tinha que mandar um recado pro Rodrigo... tem que votar essa merda, assustar um pouco, entendeu?” Sim, mais claro impossível. Na sequência, ele revela que Temer sancionaria a anistia, mas que, se ele vacilasse, “a turma em torno dele, o Moreira e o Padilha, não vão deixar escapulir”.

O outro áudio em que Temer ouve respeitosamente o relato de uma série de crimes, em uma típica conversa de mafiosos, é de uma gravidade tal que, cheguei a imaginar, o conduziria à renúncia; mas Temer, “aconselhado pela turma em torno dele”, optou por afundar o Brasil, desta vez sem mesóclises.

O primeiro desafio é o de expulsar a quadrilha instalada no Poder. O STE ajudaria muito caso fizesse sua obrigação e cassasse a chapa Dilma-Temer, financiada pelo crime nos mesmos termos da chapa de Aécio. Se Temer não for afastado pelo STE ou pelo STF, poderá ser impedido pelo Congresso. Talvez esse seja o desfecho, mas nunca se pode ter certeza porque, entre nós, mesmo o óbvio agrega extraordinária dificuldade. Observe-se, por exemplo, a reação das classes médias e da turma que se vestiu de amarelo para exigir a saída de Dilma. O que será que ocorreu com eles? Estão sofrendo de depressão pós-pato? E a turma que atacava a Lava Jato com a convicção de que ela era uma armação contra o PT? O gato comeu a língua?

A realidade brasileira é tão avassaladoramente irreal que se tornou difícil separar posições políticas de delírios. A delação da JBS, por exemplo, deu origem a duas explicações psicóticas: pela primeira, comum entre os indignados-com-o-PT-mas-só-com-o-PT, tudo não passou de uma armação para favorecer Lula. Os irmãos Batista estariam, nessa hipótese, a serviço de uma estratégia para derrubar Temer e antecipar as eleições, única chance de Lula ser candidato. Na outra ponta da irrealidade, há petistas convictos de que tudo o que está ocorrendo é apenas uma solerte manobra para despistar o objetivo real da Lava Jato, que seria, claro, prender a pessoa mais honesta do Brasil.

Quando coisas assim ocorrem com um indivíduo, podemos estar diante de um transtorno, mas quando há centenas de milhares de pessoas repetindo afirmações do tipo, de um lado e de outro desse grande manicômio da política nacional, então é preciso reconhecer que a maior loucura está instalada na realidade, faz parte dos protocolos cotidianos das instituições e diz respeito à essência das narrativas que constituem os sujeitos e os partidos.

É preciso romper radicalmente com isso se queremos, de fato, construir uma República. Agora, há uma frase que sintetiza esse compromisso: Fora Temer! Não pronunciá-la, em alto e bom som, passou a ser um ato de conivência com o crime.