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Colunista 11/06/2018 08:50
Por: Flavio Williges
Flavio Williges

Flavio Williges

Flavio Williges é professor do Departamento de Filosofia da UFSM. Está em estágio de pós-doutorado na University of California, em Davis, como bolsista da Fundação CAPES. Interessa-se por filosofia das emoções, teorias éticas e psicologia moral. Escreverá sobre cinema, literatura e conduta da vida em geral.

A mística do salame

Fui despertado hoje pela voz entristecida de um amigo, um dedicado funcionário do Estado do RS. Como se sabe, o governo do Estado acaba de publicar dois decretos no Diário Oficial: o 54.088 e o 54.089, que encerram, respectivamente, as atividades de mais duas fundações estaduais: a Fundação de Ciência e Tecnologia (Cientec) e a Fundação Piratini, mantenedora da TVE e FM Cultura. Pelas notícias que chegaram até aqui, o mesmo ocorreu recentemente com a Fundação de Economia e Estatística e pode vir a ocorrer com outras fundações estaduais. O argumento do governo para extinguir fundações e "enxugar" a estrutura do Estado é essencialmente o déficit nas contas públicas, mas não é preciso ser muito bom em contas para saber que certos cortes de custos podem, no curto e médio prazo, gerar mais prejuízos do que benefícios. Mas eu não queria falar com ele sobre economia e tampouco mostrar que há erros de estratégia nos processos de privatização que tornaram-se lugar comum no receituário político nacional mais recente.

O mundo social é sempre nebuloso e é difícil capturar a dinâmica que move as escolhas humanas. Cedi, no entanto, à tentação de falar dos processos cognitivos que informam nossas escolhas, pois como estudante de epistemologia tenho aprendido um pouco acerca desses fenômenos. Como se sabe, em torno 60% dos votos válidos dos gaúchos, esses que acham que todos os políticos são iguais, foram para o Sartori no segundo turno da última eleição para o governo do Estado. Muita gente estudada apoiou o gringo e não me surpreenderia se boa parte desses 60% votem nele novamente. “Vai ter sotaque italiano no Piratini”, alguém me disse tempo atrás, na época da campanha. O que esse tipo de discurso significa? É a mais pura mistificação. A mesma mistificação do gaúcho, que agora se mostra valoroso batendo em guris skatistas, como mostra um vídeo assustador que circulou pela internet nos últimos dias. Mistificação é uma espécie da vasta gama de processos de distorção cognitiva a que humanos estão sujeitos. Por isso, é importante ser responsável epistemicamente, ser cuidadoso com nossa forma de pensar, na avaliação das opiniões a que damos assentimento. Devemos sempre perguntar, por exemplo, se as bases que fundam as nossas crenças e informam as nossas escolhas são razoáveis ou fruto de algum processo estranho à racionalidade. A ciência cognitiva tem mostrado que boa parte de nossas desgraças advém de diferentes tipos de irracionalidade, às vezes pequenas, que parecem insignificantes, mas cedo ou tarde cobram seu preço. Na última eleição, por exemplo, bastaria fazer uma conta de 2+2 para perceber que um candidato, supostamente um professor, que fazia piada de mau gosto de professores não podia ser nada, senão uma fraude. Hoje sabemos que é coisa bem pior, pois não há vácuo em economia, donde se deduz que existam expectativas privadas em torno da demolição da estrutura estatal, como o mal explicado episódio da venda das ações do Banrisul parece sugerir. Há outros fatores, claro, que explicam a ascensão do salame a elemento de salvação, como uma assembleia legislativa conservadora e subserviente, incapaz de avaliar minimamente os custos envolvidos em rifar funções estatais estratégicas, a forma seletiva como se noticia o déficit (ignorando, por exemplo, estruturas corporativas que uma vez desmontadas teriam muito menos custo social, as isenções e a ineficiência fiscal, dentre outros fatores, como a ausência de uma política econômica propositiva). Há também as dificuldades próprias da oposição, acuada por acusações, em ganhar a guerra ideológica. Todos esses fatores são relevantes, mas não podemos menosprezar o desleixo epistêmico de nossos concidadãos, essa espécie de desejo de se deixar levar por uma história mal contada, uma mística da polenta mágica que nos libertará do mal com receitas caseiras, como se administrar um Estado exigisse o mesmo tipo de competência necessária para negociar queijo e vinho nas cantinas da colônia. E, para ser sincero, não vejo nenhuma perspectiva de progresso social mesmo com novo governo. De acordo com as mais recentes pesquisas, o candidato que lidera é o jovem bonitão. Abandonamos a fé cega nos mitos antigos (do gaudério e do imigrante) para abraçar um novo, com cabelo cortado e corpo cuidado, assim como os porto-alegrenses abraçaram o prefeito gestor, cuja maior dificuldade parece ser, justamente, gerir. As possibilidades políticas são finitas e a vida é curta, de modo que a escolha em quem votar pode ser equiparada a uma soma simples. As melhores alternativas políticas na história das democracias ocidentais são de centro-esquerda. A Europa e a América nos deram fartas provas disso. Mas tente dizer isso para as pessoas... Centro-esquerda ou qualquer coisa com nome de esquerda hoje é sinônimo de comunismo, a palavra mais rica e assustadora no vocabulário acéfalo. E assim, de grão em grão, o futuro continua escuro, um fantasma. Sem projetos de soberania, sem uma sociedade capaz de dialogar minimamente e construir consensos, vamos colecionando perdas e penas. Não há final feliz. Como já disse o poeta argentino Ataualpa Yupanqui: “las penas son de nosostros... las vaquitas son inglesas”.