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Colunista 13/07/2018 16:33
Por: Flavio Williges
Flavio Williges

Flavio Williges

Flavio Williges é professor do Departamento de Filosofia da UFSM. Está em estágio de pós-doutorado na University of California, em Davis, como bolsista da Fundação CAPES. Interessa-se por filosofia das emoções, teorias éticas e psicologia moral. Escreverá sobre cinema, literatura e conduta da vida em geral.

Ninguém nasce racista

As pessoas não nascem racistas. Elas se tornam. Crimes de ódio racial são resultado de uma cultura racista, assim como os crimes sexuais são consequência de uma cultura machista. Há casos de doença mental, que pedem internação, mas na maioria das vezes o racista ou machista é uma pessoa comum que foi criada numa sociedade que o ensinou a odiar, a abusar, a considerar certas pessoas respeitáveis e outras inferiores, uma sociedade onde ninguém deixou claro ou foi enfático ao repudiar os signos do racismo e sexismo que luzem por toda parte.

Não é uma decisão pessoal. É uma aculturação.

E, assim como as pessoas apreendem ideias distorcidas, elas podem apreender ideias corretas. Sabemos isso pelas experiências exitosas de combate ao bullying escolar. É preciso, no entanto, um grande esforço, investimento e leva tempo, talvez mais de uma geração.

Nossas universidades e escolas têm feito pouco para combater o racismo! Nossas escolas e universidades têm feito pouco para combater o racismo!

Muitos acham que essa alegação é falsa, mais uma ladainha furada. Pensar que ela é falsa ou bobagem é mais um sinal que vivemos numa cultura tão impregnada de racismo e que impede as pessoas de verem o que está diante de seus olhos.

​​Pergunte a si mesmo: quantas vezes você ouviu referências pejorativas, piadas, expressões negativas acerca de negros na sua cidade? Quantas vezes você ouviu referências elogiosas? Compare quantos predicados positivos de negros e brancos você consegue lembrar. Quantas aulas você teve sobre a natureza do racismo na sua escola ou no seu curso? Você acha que racismo consiste apenas em xingamentos (como torcedores fazem), violência física ou frases em banheiros? Ou há mais elementos? E se há, quais seriam? Se essas perguntas, especialmente a última, forem difíceis de responder, não seria o caso de admitir que algo mais precisa ser feito?

E se você não sabe ou não tem certeza do que precisa ser feito, consulte e ouça as pessoas que são vítimas de racismo e têm algum treinamento sobre as formas de abordá-lo. Por uma questão de sobrevivência, muitas pessoas estudam e discutem esses temas o tempo todo. Elas vivem o incômodo de ver uma frase racista no banheiro todo dia. E não podem simplesmente apagá-la. Não lamente seu desconforto com essa situação. Não lamente pelo idiota racista que escreveu aquilo. Lamente e se indigne por, mesmo existindo mecanismos, sempre optarmos por priorizar outras coisas mais importantes ou urgentes. Se indigne por saber que você ou seu filho honesto podem andar na rua sem serem importunados, mas não uma outra criança honesta, mas negra, que mora noutro bairro ou noutra rua. Lamente o mal e nossa falta de esforço e empenho em fazer-lhe frente. Não lamente e não critique as pessoas que, mesmo fazendo tudo o que você faz, ainda precisam lutar pela direito elementar a dignidade e a vida.