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Colunista 24/07/2019 15:43
Por: Ângelo Savi
Ângelo Savi

Ângelo Savi

Ângelo Savi é advogado, formado pela UNISC, com pós-graduação em Direito Processual pela mesma instituição. Tem interesse em vários ramos do conhecimento, especialmente História, Política, Filosofia, Literatura, probabilidade, estatística e, mais recentemente, em Economia. Em seus artigos, chama atenção a facilidade com que passa de uma área a outra do conhecimento, aprofundando o tema abordado.

Sobre depressão e a liberdade de fazer escolhas

Depressão é o nome que se dá para o que há bem pouco tempo se chamava de tristeza. Não desfaço da doença, bem pelo contrário, ela é um mal com consequências catastróficas que não raro leva ao suicídio e à paralisação da vida.

A depressão não anda solteira, sempre é acompanhada por outros males, como alcoolismo, abandono de filhos ou pais, criminalidade, tóxicos, violência, impossibilidade de sustentar a família, incapacidade de trabalhar e outras. É consequência da degradação geral. Por que é assim?

Há muito uma mentira vem sendo vendida pela intelectualidade, que é a de que é possível que se viva num paraíso, bastando que sejamos livres para dar curso aos nossos instintos, às nossas pulsões e aos nossos desejos imediatos. O início desta história é bem definido no tempo: maio de 1968, quando, a pretexto da superação de uma cultura conservadora e opressiva, estudantes franceses iniciaram protestos que logo viraram uma greve total e, em seguida, em tumulto generalizado. O movimento se espalhou pelo mundo e inegavelmente iniciou uma nova maneira de encarar a vida. Tempos do “é proibido proibir”. Uma má interpretação das teorias freudianas que identificavam como causa de problemas emocionais o choque entre as restrições que a sociedade nos impõe e os nossos instintos. Freud nunca pregou a liberdade irrestrita para as pulsões instintivas, mas dizia que sem coerção não há civilização. Entretanto, é agradável pensar que, se fizermos o que bem entendermos, a vida será maravilhosa, sem que tenhamos que pagar por isto. Ideias inovadoras atraem pseudofilósofos e intelectuais e a pretensa novidade de que a solução para todos os problemas é a liberdade total caiu como uma luva - de início para os franceses, que desenvolvem teses para tudo - depois para o mundo inteiro. Ideias têm consequência: começam nos meios intelectuais e terminam por se proliferar em toda a sociedade. Principalmente se for uma ideia que prega a possibilidade de que a felicidade pode ser gratuita e que não exige esforço nem tem custo.

De modo que aquelas promessas de liberdade sem consequência, de felicidade sem ônus foram implantadas em cabeças que escolhem a ignorância da realidade como modo de se orientar na vida. Hoje há uma crença generalizada de que temos direitos infinitos, não só os que os políticos gostam tanto de prometer, como saúde, educação, segurança, habitação, emprego, como também o de não termos restrições às nossas vidas. Não é assim que funciona, tudo tem preço e o que parece ser barato sempre é muito caro.

Falo de homens que fazem filhos sem ter como sustentá-los. Eles sabem que crianças têm que ser educadas, alimentadas, protegidas, mas quem se importa? O que interessa é que a mulher estava disponível. De mulheres, normalmente meninas, que se juntam com canalhas violentos, são abandonadas e logo encontram outro do mesmo tipo. Fazem um ou mais filhos com cada um deles, mas e daí? Estão apaixonadas e dane-se o resto. De jovens que se viciam pensando somente no prazer imediato da embriaguez do tóxico. Sabem perfeitamente que o vício é caro e que exige dedicação integral que anula tudo o mais que há na vida, mas ninguém tem nada que ver com o que ingerem ou fumam. E muito mais. E muitas outras escolhas erradas com base na também errada ideia de que felicidade se consegue com irrestrita liberdade. Não há como. O que se consegue deste jeito é ter depressão ou causá-la nos que são nossos próximos.