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Colunista 30/10/2017 16:26
Por: Guilherme Brambatti Guzzo
Guilherme Brambatti Guzzo

Guilherme Brambatti Guzzo

Guilherme Brambatti Guzzo nasceu em Sananduva/RS, é biólogo e professor. Atualmente, é docente no curso de Ciências Biológicas da Universidade de Caxias do Sul e cursa doutorado em Ensino de Ciências e Matemática pela PUCRS. A coluna tratará de livros e discutirá temas relacionados à educação e às ciências.

Não confie (cegamente) em suas intuições

“Nossas relações com aqueles que amamos podem ser entregues, com segurança, ao instinto; e nossa relação com aqueles que odiamos deve ser posta sob o domínio da razão”, escreveu o filósofo Bertrand Russell em “Ensaios Céticos”, obra publicada em 1928. Russell entendia que nossos instintos, ou intuições, não podem ser considerados importantes ou confiáveis por si mesmos: devemos refletir sobre eles, sobre o quanto são adequados em uma certa situação, e se eles podem ser bons guias no processo de formação de crenças ou de tomada de decisões.

A discussão da dicotomia apresentada por Russell (instinto/emoção X razão) é muito antiga, e tem recebido uma atenção especial de autores contemporâneos da psicologia cognitiva. Hoje, pesquisadores na área de tomada de decisão e raciocínio trabalham com a ideia de que nós, humanos, possuímos um “sistema dual de pensamento”, o que significa dizer, grosso modo, que apresentamos dois estilos cognitivos diferentes em nossos processos de pensamento e decisão: um rápido, automático e intuitivo, e outro mais lento, reflexivo, deliberativo e consciente. Daniel Kahneman, psicólogo que recebeu o prêmio Nobel de Economia em 2002 justamente pelo seu trabalho com o “sistema dual de pensamento”, chama a nossa maneira de pensar rápida de “Sistema 1”, e a contrasta com o “Sistema 2”, o modo mais lento.

Voltemos à frase de Russell, aplicando a ela os termos de Kahneman: enquanto podemos usar o Sistema 1 em nossas relações com aqueles que amamos, devemos por sob o escrutínio do Sistema 2 as reações instintivas que temos pelos nossos desafetos. Podemos “entrar no modo automático” (Sistema 1) com nossos familiares e pessoas mais próximas por quem temos carinho, pois dificilmente agiremos de modo agressivo ou desrespeitoso com elas. Já com nossos “inimigos”, se os tivermos, precisamos prestar mais atenção ao modo como pensamos sobre eles e os tratamos: se temos maus sentimentos com relação a essas pessoas, cabe ao nosso Sistema 2 monitorá-los, e impedir que possamos externá-los ou expressar qualquer outra atitude negativa contra quem quer que seja, de maneira injustificada. De certo modo, nossa capacidade de refletir serve especialmente para monitorar nossos impulsos e intuições, mas nem sempre somos capazes de fazer isso adequadamente.

Autores contemporâneos, como os psicólogos Keith Stanovich e Daniel Kahneman, e filósofos como Julian Baggini e Joseph Heath têm destacado as fragilidades de nossa capacidade racional ou, de modo mais geral, de nosso Sistema 2. Com frequência, somos movidos por operações de pensamento rápidas e automáticas e, quando o Sistema 2 aparece, é comum que, ao invés de gerenciar os produtos de nossos processos cognitivos associados ao Sistema 1, ele invente razões para justificá-los, solidificando nossas preconcepções. É por isso, por exemplo, que uma discussão raramente termina com um de seus participantes mudando de posição ou revisando os seus próprios argumentos. O mais provável em um embate de ideias, seja ele sobre política, religião, ou qualquer outro tema emocionalmente carregado, é que as pessoas se apeguem ainda mais aos seus pontos de vista iniciais, e tentem justificá-los de qualquer maneira à medida que o debate se desenvolve.

“Pensar rapidamente”, “intuir”, “seguir os próprios instintos” são características geralmente bem vistas e tidas como desejáveis por muitas pessoas. O atual presidente americano, por exemplo, tornou-se notório por se manifestar (e, talvez, tomar decisões) baseado naquilo que chamamos de gut feelings, ou seja, os seus sentimentos ou instintos viscerais, intuitivos. E Trump e seus seguidores não veem qualquer problema nisso: ao contrário, eles, como muitos de nós, entendem que as intuições nos dão boas respostas para problemas complexos. “Confie em sua intuição”, diz um meme que circula na internet, que segue “Você não precisa explicar ou justificar os seus sentimentos para ninguém; apenas siga o seu guia interno, pois é ele quem sabe mais”.

De fato, podemos tomar boas decisões seguindo os impulsos de nosso Sistema 1, o pensamento rápido, especialmente em situações que nos são familiares, ou em áreas nas quais temos bastante conhecimento e/ou experiência. No entanto, confiar cegamente no nosso modo de pensar “automático”, sem refletir sobre a adequabilidade de suas conclusões e decisões, pode também nos colocar em apuros. Keith Stanovich, em “The robot’s rebellion” (sem edição no Brasil), escreve sobre o caso de um jornalista que esteve em um encontro de anões nos Estados Unidos enquanto pesquisava para um livro no qual discorria sobre a vida cotidiana destas pessoas. Ao ver vários anões reunidos, o jornalista em questão escreveu que não conseguia parar de pensar que aquelas pessoas “pareciam erradas” e que tinham “embalagens impróprias”. Uma leitora anã, ao ter contato com a declaração do jornalista em um artigo para uma revista, afirmou que entendia que aquela era uma primeira impressão dele sobre os anões, mas que o autor deveria refletir sobre a razoabilidade de se manter um pensamento assim. No entanto, o Sistema 1 do jornalista falou mais alto, e em declarações posteriores, segundo Stanovich, ele pareceu conformado em se agarrar às suas intuições sobre os anões. Provavelmente, muitos tipos de preconceito têm origem parecida: primeiras impressões impróprias que são referendadas pelo Sistema 2, e assim são mantidas.

O filósofo Joseph Heath escreve que a civilização representa o triunfo da razão sobre a intuição. Se nossos instintos e impulsos intuitivos (Sistema 1) nos dizem que precisamos eliminar nossos inimigos, nossa razão (Sistema 2) nos ajuda a elaborar mecanismos (leis) para punir e coibir as pessoas que agem ou pensam em agir assim. Aliás, somos provavelmente o único animal com esta capacidade, o único ser que consegue pensar sobre os seus próprios processos de pensamento. Certamente, nossas capacidades racionais não são perfeitas, mas é o que temos de melhor para tentar resolver problemas complexos: deixar decisões sobre aquilo que importa para nós (e para outras pessoas) somente a cargo de nossos pensamentos automáticos e intuitivos, na maioria das vezes, tende a tornar as coisas piores.