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Colunista 22/04/2017 15:33
Por: Arthur Lersch Mallmann
Arthur Lersch Mallmann

Arthur Lersch Mallmann

Candelariense, é bacharel em Relações Internacionais pela UFSM e acadêmico de Filosofia pela mesma instituição. Possui interesse em política e filosofia. Em seus artigos, além de escrever sobre essas duas áreas, buscará lançar novas luzes sobre situações do cotidiano.

Onde está o debate sobre o “capitalismo de compadres”?

Percepções superficiais sobre a situação político-econômica do Brasil pipocam a todo instante. Com a migração de uma parte significativa do debate político para as redes sociais, o meme (imagem largamente compartilhada contendo dados de confiança questionável) virou um formador de opinião decisivo, seguido de sites de notícias com fatos parciais e posicionamento político que beira a panfletagem. A mídia tradicional também não está isenta de culpa pela falta de qualidade da informação. O seu formato antiquado e conveniente de apresentar os fatos, isto é, por detrás de uma bancada que os reveste com ar de autoridade, contrasta com exemplos de jornalismo televisivo de qualidade em outras partes do mundo, onde há espaço para entrevistas duras e críticas, ao vivo e olho-no-olho. A grande mídia tem o potencial de ser o centro de debates, a grande “mesa da cozinha do país”, como a jornalista americana Amy Goodman entende o papel dos veículos de comunicação. Uma bancada que se autointitula o arauto das verdades ou uma mesa de cozinha aberta ao contraditório: tudo depende de como entendemos o papel da mídia – mas isso é tarefa para outro momento. Voltemos à percepção dos brasileiros sobre a nossa própria conjuntura.

O Brasil não vive uma situação similar à da Venezuela, como muitos alardeavam que aconteceria durante o governo do PT. Estamos passando por uma dura recessão, embora longe de ser um colapso do fornecimento de bens de consumo acompanhado de hiperinflação, como no caso venezuelano. Por outro lado, o Brasil também não vive em um sistema neoliberal, como muitos setores da esquerda afirmam. É verdade que os “liberais à moda brasileira” atuantes no governo têm o intuito de diminuir dramaticamente o papel do Estado na garantia de direitos e na atuação direta na economia, mas raramente com o intuito de aumentar a competitividade do mercado, como tradicionalmente supõe-se que os liberais-de-fato deveriam reivindicar. Com informações desprovidas de senso crítico, perdemos de vista o debate profundo sobre a estrutura econômica e política em que nos encontramos e que, por sua vez, lesa a grande maioria da nossa população. A realidade brasileira, reiterada a cada dia pelo avanço das delações da Odebrecht, não é a de um populismo desnorteado, nem de um capitalismo de mercado, mas de um capitalismo de compadres.

Nós falamos com frequência dos políticos corruptos, mas a casta da elite econômica brasileira não é mera vítima do sistema. “São precisos dois para dançar o Tango”: no caso, uma classe política patrimonialista e uma elite econômica em busca de favorecimentos. É a esse casamento que chamamos capitalismo de compadres. Dentro da economia foram cunhados termos que tentam exemplificar a situação: existem as “políticas pró-mercado” e as “políticas pró-negócios”. A primeira visaria a criação de condições iguais para as empresas competirem; já a segunda gera benefícios para setores com fortes conexões com o governo – é justamente a segunda que predomina no Brasil. O debate sobre “quem corrompe quem” é vazio, mas não dá mais para ignorar a responsabilidade desses setores econômicos. A despeito disso, a perspectiva da simbiose da elite econômica com a política ainda é pouco abordada no debate público, e a elite econômica brasileira parece sempre ser livrada de responsabilidade pela mídia tradicional. Essa vista grossa, por sua vez, contrasta com a opinião de especialistas. O economista Marcos Lisboa, presidente do Insper de São Paulo, em entrevista ao Estadão, afirma ser injusto culpar exclusivamente o governo pela crise atual. A elite do setor privado, de acordo com Lisboa, também “cavou a crise” ao pedir (e celebrar) benefícios concedidos por parte do governo. Além dele, recentemente outros dois professores de economia da FGV (Fundação Getúlio Vargas) assinaram um artigo para o Valor Econômico defendendo a posição de que a “FIESP é contrária ao capitalismo”, ou seja, contrária à competição, porque jamais abriu mão dos velhos privilégios a “empresas escolhidas”.

Mas como essa história toda nos afeta? Ora, o capitalismo de compadres é não só injusto, como também ineficiente; ele cria um ambiente propício aos esquemas de corrupção; e, em suma, é um projeto de negócios particulares e não um projeto de mercado, tampouco de país. Apesar do capitalismo de compadres estar agora exposto em praça pública para todos verem, estamos personalizando os culpados e falhando em compreender a nossa crise.

A cena um tanto bizarra do Jornal Nacional apresentando a lista de Fachin inteira (são 108 nomes ao total) por quase 10 minutos sem, após isso, apresentar uma mínima reflexão sobre as causas profundas é um dos exemplos da superficialidade das informações que chegam à população. Não ignoro a importância de tornar públicos os nomes dos políticos envolvidos, mas que tiremos um tempo também para refletir, se possível na “mesa da cozinha” do Brasil, os problemas do nosso sistema político e os possíveis caminhos que devemos tomar daqui para a frente. Não tenho como apontar soluções, mas um bom começo seria darmos um passo para trás de modo que fosse possível, no mínimo, visualizar o caráter estrutural da crise que nos aflige.